|
“Naquele tempo, tínhamos sede de vencer”
18/Jan/2004
Entrevista feita pelo Jornal do Commercio com Nado
Mestre na arte do drible, o baixinho Nado era um gigante dentro de campo. Com 65 anos, ele é símbolo
da geração do futebol pernambucano nos anos 60. Foi vestindo a camisa alvirrubra que Nado seria o
primeiro jogador a ser convocado direto de um clube do Nordeste para a seleção brasileira. Isso numa
época em que o mundo do futebol girava em torno dos gramados do eixo Rio-São Paulo.
A agitação política vivida antes do golpe afetava o futebol?
De jeito nenhum. Os jogadores só queriam saber de jogar bola. Praticamente não se falava sobre
política dentro de campo. Depois veio o regime militar, mas a gente não se envolvia com nada disso.
O que representou a sua convocação para a seleção brasileira?
Foi um sonho. Ninguém imaginava que um jogador fosse convocado para vestir a camisa da seleção
sem nunca ter saído de um clube de Pernambuco. Naquele tempo, houve a abertura para três jogadores
regionais: Eu, Tostão, do Cruzeiro, e Alcindo, do Grêmio.
O nível de profissionalização do futebol ainda era muito precário. Como eram feitos os contratos?
Era tudo na base da amizade. Não tinha patrocínio, não tinha televisão. O diretor dizia: a gente
só pode dar isso, aí a gente pedia um pouquinho mais, e ia se acertando. Tudo era muito amador. O próprio
treinador era o preparador físico e treinador de goleiro. Só treinávamos uma vez por dia e íamos todos
de bicicleta para o clube.
O Santos e o Fluminense quiseram contratar você. Essas propostas melhoravam a sua situação dentro do Náutico?
Se a gente tivesse com o contrato já definido, não tinha o que negociar. O poder de barganha era muito pequeno.
E os salários também. Se for comparar com os valores atuais, nós recebíamos cerca de R$ 10 mil em luvas, o que não
dava para comprar nem um apartamento, talvez um carro usado. Hoje o atleta faz um contrato de R$ 100 mil, com salário
de R$ 20 mil. Na nossa época o salário era de R$ 800, um pouco melhor que o de um assalariado.
Os jogadores certamente ficaram mais ricos, mas, e o futebol, ficou mais pobre?
O futebol brasileiro caiu muito. Antigamente os olheiros iam ver o jogador pela sua condição técnica,
se dominava a bola, se era inteligente. Tínhamos sede de vencer. Hoje ele olha o porte físico do atleta,
o técnico dá um condicionamento físico e diz: segura aquele cara, não deixe ele passar, faz falta, dá carrinho.
É tanto que quando aparece um Robinho e um Diego, eles viram a sensação. O futebol de campo hoje virou futebol de salão.
|
Nado

Foto: Jornal Commercio |