Roberto Cavalo

“Armo o time de acordo com as circunstâncias”

Por: Henrique Queiroz – Foto: NauticoNET

São 18 anos no futebol, uma boa parte como atleta profissional e outra como técnico desde 1998. Roberto Fernando Schneiger, 42 anos, conquistou a Série C do Brasileiro, em 1998, pelo Avaí, no seu primeiro ano como técnico. No ano passado, levou o time catarinense às finais da Série B, mas não conseguiu subir à Série A. Em entrevista ao Jornal do Commercio, Roberto Cavalo afirmou que não abre mão de ser transparente nas suas decisões e diz que aprendeu muito com Luiz Felipe Scolari – seu técnico no Criciúma, quando foi campeão da Copa do Brasil, em 1991. Em 1993, ele foi vice-campeão brasileiro pelo Vitória. Também passou por grandes clubes do futebol brasileiro, como Botafogo-RJ e o Sport, em 95. Agora, como técnico no Náutico, está tentando montar uma equipe em plena Série B. Não foge no desafio. “No futebol você não tem que inventar”, afirma.

JC – Vamos falar do seu estilo como treinador. Você é muito transparente. Isso é uma característica do tempo de jogador profissional?
CAVALO – Como jogador sempre tive muita disposição, marcação de qualidade e sempre querendo vencer. Como treinador, da mesma forma. A gente joga junto com o time, cobra, se impõe, exige. Aprendi isso com Felipão (Luíz Felipe Scolari, campeão mundial de 2002 e atualmente treinando a seleção de Portugal). Felipão cobrava muito na minha época de jogador. Fomos campeões da Copa do Brasil em 1991 (pelo Criciúma). Hoje como treinador me espelho um pouco nele.

JC – O atleta profissional gosta dessa transparência. Inclusive, nas entrevistas, você diz algumas coisas que outros treinadores preferem não dizer. Você acha que os outros técnicos deveriam ser mais transparentes?
CAVALO – Tem detalhe que deve ser preservado. Mas às vezes eu não consigo, falo mesmo. É a minha maneira de ser, estar sempre de peito aberto. No futebol você não precisa inventar. A realidade tem que ser vivida. Ganhando ou perdendo você tem que estar presente, conversando, passando isso para o grupo, para a imprensa, para a diretoria e para a torcida. Então, eu sou um cara totalmente transparente e hoje continuo sendo.

JC – Do tempo em que você jogou no Sport (1995) para cá já passaram-se dez anos. O futebol pernambucano regrediu, progrediu? Os três grandes clubes Náutico, Sport e Santa Cruz estão na Série B do Campeonato Brasileiro. Como você analisa a situação?
CAVALO – Eu estive no Sport em 95. O clube continua bem estruturado. Essa é a realidade. Vim do Botafogo com muita moral. Nós tivemos um bom campeonato. Lá no Sul se comenta como é que pode os três times de Pernambuco não estarem na Série A, pela torcida, pelo que oferecem aos jogadores em termos financeiros e condições de trabalho? Sempre foi cobrado isso e falado no Sul. Sempre que se fala dos três clubes daqui de cima (Nordeste) é reconhecido que são três grandes do futebol brasileiro. Agora, hoje a realidade é diferente. Os três brigam para subir à Série A. Os três com dificuldades, com problemas. Acho que na competição em que sobem apenas dois, os três terão de ralar bastante para chegar lá.

JC – O fato de os três estarem na Série B mostra que o futebol pernambucano regrediu?
CAVALO – É o momento. O futebol brasileiro e o mundial também. Hoje as equipes pequenas vêm sendo páreo para times grandes. Os clubes do interior estão ganhando títulos estaduais. Na Copa do Brasil, o pequeno está sempre chegando. Hoje o Flamengo não é mais respeitado como antigamente. Acho que mudou muito no geral não só aqui em Pernambuco.

JC – Vamos falar de esquematização do time. Contra a Anapolina você escalou quatro volantes, um meia e como atacante apenas Kuki. O time venceu (2×1). Diante do Santa Cruz foram três volantes, um meia e dois atacantes. O time perdeu (3×1). Contra o Criciúma você repetiu a formação do jogo com a Anapolina. O Náutico vencia por 2×0, deixou empatar, mas antes Kuki tinha saído machucado no final do primeiro tempo. Você tirou um volante e colocou o meia David. O time reagiu e venceu por 4×2. Luiz Felipe Scolari, em entrevista à TV Cultura, disse que em Portugal usa-se muito o 3-5-2, mas acrescentou que a questão da marcação é uma tendência muito forte e que acredita que se possa jogar futuramente no 4-4-1-1. Você armou esse esquema em dois jogos. Foi pela circunstâncias?
CAVALO – Antigamente nós jogávamos com dois volantes de marcação, um meia de ligação, dois pontas abertos e um centroavante de área. Essa é a realidade antiga do futebol. Hoje, nós treinadores estamos acabando com essas situações. Já não existe o ponta, o centroavante de área não está sendo mais pretendido pelos clubes, querendo mais atacante que chega em velocidade e estamos enchendo o meio com marcação porque quando aparece um jogador de muita habilidade a gente tem de marcar. Se o adversário tem três, a gente tem que marcar os três. O time que joga com mais marcação tem mais sucesso nos 90 minutos. Realmente fiz com a Anapolina e o Criciúma e nos demos bem. Foi provado. Fiz isso em outros clubes em que passei. No Paysandu, quando cheguei, estava jogando com três atacantes e um meia-de-ligação, quatro homens do meio para frente. Não adianta. Você vai criar dez chances de gol, mas o adversário vai ter onze. Você tem de analisar a sua situação, para poder formar o time. O importante é ter qualidade para sair para o jogo.

JC – Você deu uma declaração de que se estivesse no Corinthians ou em outro grande clube levaria Carlinhos Bala e Kuki. O futebol pernambucano ainda consegue ter essa qualidade. Pode revelar outros jogadores?
CAVALO – Sem dúvida, temos condições de revelar novos valores. Pernambuco sempre deu jogadores para a seleção brasileira. Hoje tem Juninho Pernambucano. Cheguei a jogar com ele no Sport. Ele muito novinho. Eu como treinador analiso o futebol de uma maneira não muito diferente da imprensa. Tenho Carlinhos Bala e Kuki (apesar dos 34 anos do atacante alvirrubro) dois atacantes do meio para frente de alto nível, imagina Robinho, Carlinhos Bala e Kuki jogando juntos. Eu sendo treinador de um time desses quero ter jogadores dessa qualidade e velocidade.

JC – O treinador se transformou em estrela no futebol mundial. Fala-se muito em Vanderlei Luxemburgo, Leão, o italiano Fábio Capello, Felipão. É estrela mesmo?
CAVALO – Isso é trabalho. Eles fazem por merecer. Também penaram muito no Brasil. Isso é exemplo de que nós brasileiros conhecemos muito mais o futebol. Veio Daniel Passarella para o Corinthians e não deu certo. É bom saber que tem quatro, cinco nossos lá fora, não dando show, mas profissionais dando resultados.

JC – Em 1995, o Sport perdeu o Campeonato Pernambucano. Mas houve um lance, que o árbitro Valdomiro Matias disse que foi o maior erro dele na carreira, quando invalidou um gol legal do Sport contra o Santa Cruz, na Ilha do Retiro. Um gol que você marcou de falta. Ficou um gostinho de frustração por ter perdido o título pernambucano justamente por causa de uma falha da arbitragem?
CAVALO – A vitória nos daria a condição de empatar com o Náutico para sermos campeões. Nós jogamos esse clássico com o Santa Cruz. O nosso estádio (Ilha do Retiro) estava lotado. Eu bati uma falta, não era frontal, era mais na diagonal. Eu bati para gol, que eu tinha uma certa facilidade de bater na bola. Bati com potência e qualidade e Marcelo (o ex-atacante Marcelo Rocha) acompanhou a trajetória e foi de encontro à bola. O juiz interpretou que ele colocou a mão na bola. Ele não tocou. A bola entrou direto. Foi um lance na hora duvidoso. Para o juiz na época já era difícil, imagine um lance desses hoje, quando se tem mais recursos eletrônicos para tirar as dúvidas. Se ele errou foi por um detalhe. Foi o único erro da vida dele. Foi um grande profissional e um baita árbitro. No dia em que tiver oportunidade quero dar um abraço nele. Mas ficou um gosto de “cabo de guarda-chuva na boca”.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

*


9 + = 18

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>