ENTREVISTA

Após dois anos, Gallo reencontrou o Náutico e pisou nos Aflitos cercado por desconfiança de quase todas as partes. Mal teve tempo de conhecer o grupo e já teve que colocar o time em campo para enfrentar o Sport nas semifinais do Pernambucano substituindo Waldemar Lemos, que havia sido demitido. Foi eliminado, mas buscou no tempo que lhe foi oferecido com a saída precoce da competição para arrumar a equipe. Contratou jogadores, estudou possibilidades e o resultado não custou a aparecer.  Na Série A, o Náutico de Gallo disputou vinte jogos  e possui o saldo de nove derrotas, oito vitórias, três empates e um destacado nono lugar na tabela.

O resultado é bastante satisfatório, se considerar as pesquisas feitas no início da competição que colocava o Timbu entre os times que brigariam para não figurar na zona de rebaixamento. Ciente do trabalho que ainda precisa ser conquistado no Náutico, o treinador reforça o discurso da ‘humildade’ para conseguir obter outras boas marcas na carreira.

Aos 45 anos, Gallo reúne experiência como atleta – até os 34 anos – e como treinador de grandes equipes brasileiras como Atlético-MG, Internacional, Figueirense e o Sport. No cenário internacional, o técnico tem passagem pelo Al Ain dos Emirados Árabes. Defensor de uma filosofia imediatista, Gallo prefere não traçar planos no futuro no esporte e vive cada momento de forma intensa.

Em entrevista  ao GLOBOESPORTE.COM, o técnico explicou a estratégia de contratação dos jogadores que hoje defendem o time e abordou temas do interesse do torcedor alvirrubro.

Sua vinda para o Náutico gerou certa desconfiança pelo que aconteceu em 2010 – quando o Náutico apresentava uma campanha avassaladora, mas depois caiu de rendimento e não conseguiu o acesso à Série A naquela temporada. Como você lidou com isso e até superou o passado com esse excelente trabalho que realiza no Timbu em 2012?

- Eu discordo porque a campanha de 2010 foi muito boa. Até a 20ª rodada, nós estávamos em sexto colocado a um ponto do quarto. Só que nós estávamos 90 dias com os salários atrasados. Eu fui mandado embora na 15ª rodada, a campanha em si foi muito boa. A primeira coisa foi a gente mudar o grupo. A equipe não tinha nenhuma condição de disputar o Campeonato Brasileiro, nós trocamos praticamente 70% do grupo. Eu acho que pelo Náutico ter saído na semifinal do Campeonato Estadual facilitou muito o nosso trabalho, porque a gente conseguiu ter tempo de ir atrás de alguns jogadores importantes que se a gente tivesse classificado não conseguiria. Uma sacada bacana que conseguimos foi ter encontrado atletas locais como o Araújo, Lúcio, o próprio Rico. Quando você coloca no grupo jogadores vencedores como eles, facilita muito o teu trabalho porque eles estão jogando em casa, junto da família.

O que aconteceu naquela época (em 2010) que difere do que está acontecendo agora, já que hoje os jogadores apresentam mais regularidade e motivação?

- O clube está honrando com seus compromissos e futebol todo mundo sabe que não faz sem dinheiro. É impossível. Principalmente um grupo de jogadores vencedores como é o que a gente tem hoje. São jogadores já rodados e bem estruturados. São extremamente profissionais. Martinez, Lúcio, Alessandro, Jean Rolt, Elicarlos. São jogadores que já têm uma estrutura que dificilmente suportariam uma situação de problema financeiro. Àquele ano nós ficamos 15 rodadas entre os cinco primeiros, sete em primeiro colocado. Eu via no presidente muita luta, na época era o Berillo (Júnior), e ele lutava muito no conselho e não conseguiu ter uma sequência em função disso. O Náutico está vivendo outro momento, um momento bem importante e isso muda tudo. Muda o astral, o dia a dia, porque é sacrificante você ter um dia a dia como o nosso com 90 dias de salário atrasado. É bem complicado. Essa é a diferença.

O Náutico está na nona colocação e com a manutenção da Série A bem próxima de ser alcançada. Já dá para pensar em um segundo objetivo, que seria a classificação para a Copa Sul-Americana?

- É cedo para pensar nisso. Nós não queremos abrir nenhum precedente para não fugir do nosso primeiro objetivo. A gente até comenta no Náutico que a gente só vai falar em um segundo passo quando conseguir fechar o primeiro. Temos que ter o pezinho no chão, com bastante humildade saber das nossas possibilidades e seguir firme sem dar nenhum precedente porque o futebol não perdoa.

A campanha do Náutico está superando suas expectativas?

- Quando eu cheguei ao Náutico, fiz uma reunião com o Conselho e apresentei a estrutura de trabalho que iria ser feita. Quais seriam os atletas a serem contratados e por que. Porque a gente imaginava uma maneira de jogar pautada em cima de muita velocidade. Então eu exemplifiquei para eles quais os jogadores que sairiam e os jogadores que iriam chegar. Foi muito bacana e a coisa está acontecendo. Acredito muito no meu trabalho, sei do meu potencial, mas mais uma vez friso que se não houvesse a entrega dos atletas, o congraçamento deles, a coisa não andaria.

Muitos dos jogadores contratados foram indicações suas. Você faz questão de participar de todo o processo de escolha dos jogadores?

- Todas as contratações, 90% foram indicações minhas, as que não foram, foram em cima do meu aval. O que eu não entendo é como o profissional não opina e trabalha com o atleta que tem uma característica que ele não entende para o time. Então, antes do campeonato, a gente já tinha um esboço das características que a gente queria. Tinha uma situação, se não conseguisse, teria outra situação. Porque muitas vezes não é só a questão financeira. O atleta tem que ter disponibilidade, o atleta querer vir, o clube querer liberar. Nós conseguimos quase 80% do que a gente queria em boas condições.

Você pode fazer uma análise da evolução de Gideão?

- Gideão saiu em um momento que eu achei que ele tinha que sair. Trabalhou muito duro enquanto estava na reserva. Ele é um atleta que se dedica bastante. Acho que ele ainda tem muito a evoluir. É um atleta para ser muito trabalhado, para buscar uma grande carreira, ser um jogador top. O que a gente conversa bastante com Gideão é para ele buscar essa evolução. Houve a oportunidade, o momento, ele veio para a titularidade e seguiu firme. Eu procuro tratar todo atleta sempre assim. Papo reto, sem conversinha. Não tem nome. O atleta entrou teve uma boa possibilidade, eu entendi que o time vai andar bem com ele, ele segue.

Araújo é um grande jogador e conseguiu se destacar. Agora, com a dupla de ataque formada, o jogador parece um pouco ‘perdido’ em campo e não vem realizando boas partidas como antes. O que está aconteceu?

- Araújo está cumprindo algumas funções que, às vezes, não são as dele. Ele está me ajudando muito, ele é um líder, eu conto com ele, ele é um grande jogador e se supera. Ele é um atleta super- importante que eu continuo confiando muito. Eu sei que ele vai continuar nos ajudando, nosso segundo artilheiro ao lado de Kieza. Não é todo jogo que o atleta vai conseguir fazer aquela high performance. Ele tem mais de 35 anos, a gente está tentando recuperá-lo o máximo possível. O importante é que ele já jogou 18 jogos consecutivos com a gente, fato que há muito tempo ele não jogava. Então está sendo muito bom e a gente vai continuar acreditando no futebol dele.

O lateral-esquerdo Douglas Santos, jogador que veio da base e tem apenas 18 anos, está muito bem como titular a ponto de ter tirado o experiente Lúcio da vaga. O que aconteceu para ocorrer a mudança?

- A gente estava jogando com o Derley como um lateral esquerdo e o Auremir como direito. São dois jogadores de muita velocidade. E a gente precisa dessa velocidade na lateral para dar sustentação à nossa zaga. Então quando saiu o Derley e o Lúcio, a gente começou a jogar com Alessandro e Auremir e o Lúcio é um jogador que já está acostumado a jogar mais na meia e na frente. Tem o João Paulo que está buscando espaço e é um bom atleta. E eu senti a necessidade de buscar velocidade pelas laterais. Eu pedi a contratação do Patric e coloquei ele e o Douglas para jogarem juntos. Nossa equipe voltou a ter velocidade e deu uma crescida boa em função deles. Mas temos que ter muito cuidado com o Douglas, saber administrar muito porque ele é um garoto de 18 anos. Ele não está completamente formado fisicamente para estar jogando no nível que ele está jogando, Série A, mas eu acho que é uma pérola que tem que ser trabalhada com bastante cuidado porque no futuro o Náutico pode passar por uma negociação desse garoto.

Em relação aos jogadores da base, qual a Sua opinião sobre preservá-los e até utilizá-los no profissional?

- Eu adoro jogadores da base, desde que tenha qualidade. Eu não gosto de jogador da base que não tenha qualidade. É natural. Temos outro jogador que está trabalhando com a gente que é o Marcos Vinícius, que é um bom jogador e precisa melhorar muito a questão física. Ele ainda não está pronto. A gente sempre tem olhado para os jogadores da base, todo clube que eu passei eu me preocupei com eles. Posso citar alguns como o Carlinhos do Santos, Rivaldo que está no Sport. Felipe, nosso goleiro. O próprio Auremir da outra passagem minha, entre outros. Todo time que eu passei fiz questão de lançar a meninada e torço para que eles possam trabalhar em alto rendimento.

Como ‘pupilo’ de Wanderley Luxemburgo (os dois foram campeões brasileiros pelo Santos em 2004), o que você absorveu do estilo dele e até de outras pessoas importantes para a sua carreira?

- Wanderley foi uma pessoa importante quando eu fui atleta. Fomos campeões paulistas, depois pela Copa do Brasil. É lógico que todo profissional visualiza outro profissional para ter um norte na carreira. A gente se deu muito bem porque a gente pensa muita coisa de futebol parecida. Claro que eu tenho uma maneira de agir e ele tem a dele, que eu respeito muito. E eu tive a oportunidade na minha carreira de trabalhar com grandes treinadores do Brasil. Muricy, Abel, Parreira, Nelsinho e aprendi muito com todos eles porque eu queria muito ser treinador. Eu me preparei muito para isso estou aqui hoje sempre aprendendo a evoluindo.

Você poderia citar momentos marcantes na carreira como treinador.

Todo título que você ganha é marcante. A última vez o que Figueirense foi campeão foi comigo, em 2008. Depois eu fui campeão da Recopa Sul-Americana com o Inter, em 2007. Campeão pelo Sport em 2007. Fui campeão nos Emirados Árabes da Radif Cup, em 2011. Foram quatro títulos e todos os anos que eu disputei Estaduais eu cheguei às finais, perdi um pelo Vitória. Perdi um com o Náutico contra o Sport aqui (em 2010). Todas as decisões marcam muito a carreira da gente. O importante é você está trabalhando e sempre chegar às decisões. Às vezes o futebol traz um detalhe ou outro e você ganha ou perde, mas praticamente eu passei por seis ou sete decisões e quando passa o tempo de carreira isso se torna importante.

Esta é a terceira vez que você vem ao Recife, qual a sua relação com a cidade? O que você gosta de fazer durante os poucos momentos de folga?

Eu adoro Recife. Uma cidade que me acolheu muito bem, bons serviços, bons restaurantes, que é o que eu gosto de fazer quando tenho folga. Nos poucos momentos de folga eu gosto de apreciar a culinária da região.

Por: Globo Esporte
Foto: NauticoNET

3 respostas a ENTREVISTA

  1. Carlos Augusto disse:

    Tem que contratar um atacante urgente. Kimerda não dá mais.

  2. O JOGO CONTRA O CRUZEIRO JÁ É PASSADO,TEMOS QUE CORRIGIR OS NOSSOS ERROS,PARA NÃO ERRAR DE NOVO.TEMOS QUE NOS PREPARAR PARA A PRÓXIMA BATALHA.GALO,MOSTRE AS FALHAS QUE OS NOSSOS JOGADORES COMETERAM NO JOGO CONTRA O CRUZEIRO,PARA QUE NÃO TORNEM À REPETÍ-LOS

  3. Bruno Marinho disse:

    Bote Douglas na lateral esquerda quarta,e Lúcio no segundo tempo que ele rende melhor

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