HISTÓRIA

No hospital a noite é longa. Sobra tempo pra voltar no tempo, vasculhar na memória os fatos mais distantes. Silêncio no corredor. Esqueceram o remédio da meia-noite. Quem sabe dá pra dormir um pouco sem o sedativo?

O velho campo dos Aflitos. Tudo era novidade pra quem vinha de Natal. Chegou no Náutico desconhecido. Cabelos louros. Cara de menino. Futebol de craque. Um repórter tascou precipitado:

“Chegou o amigo de Petinha! Será que joga alguma coisa esse rapaz?”

Primeiro treino. Bola presa entre os pés pela lateral. Cruzando o campo inesperadamente. Os companheiros observam o doido. A bomba sai violenta, letal, no ângulo: Reservas 1 x 0.

O Recife ficou pequeno em poucos meses. Fenômeno. Agnaldo Timóteo viu o menino jogando em Recife. Ligou pro Botafogo:

“Comprem! Urgente!”

Chegou no Rio com a mesma cara de menino.

“Domingo tu entra contra o Rei!”

Antes de o jogo começar, Pelé falou pra os companheiros:

“A mina é o Galego!”

Na primeira bola, Marinho se antecipa ao Rei e mete-lhe um chapéu. Como Garrincha nas canetas de Nilton Santos. Só que agora, Nilton Santos é Marinho. E Marinho é a alma do velho Garrincha. Infernizando os santistas. Impressionando o mundo. Desempregando os zagueiros que lhe fazem cobertura.

É convocado para a Seleção. Um holandês entre os brasileiros no Mundial de 74. Leão lhe desfere um soco depois do gol polonês.

“Irresponsável!”

Leão que falhara no primeiro gol holandês de Neeskens. Sem socos.

Amigos. Violão. Birita. Acorda no meio da madrugada. Sem saber onde está. Aos poucos recorda dos amigos de aluguel, das meninas, das noitadas. Os alemães sonham em levá-lo. Paul Breitner diz não!

“Gênio na esquerda aqui basta eu”

Marinho passeia entre os astros. No Cosmos. Aos poucos vai caindo na terra.

“Hepatite C, Marinho. Alcoolismo. Ou você deixa a bebida ou nada podemos fazer por você.”

Mas como se a bebida é o último refúgio para as pernas que desobedecem ao drible? Como se apenas a bebida traz o Maracanã lotado? A defesa da Colômbia fechada. O chute que sai em curva, por sobre o arqueiro?

O copo sobre a mesa observa o antigo craque imaginando outro tempo.

Riachuelo.

Petinha morreu, Marinho.

Cadê o Arthur, o Dirceuzinho, o Jair, o Krol?

Quarenta e cinco minutos do segundo tempo.

0 x 0.

A vida encara o lateral esquerdo. Bola nos pés. Rente a lateral.

A vida faz que vai e vem. O lateral estático observa. Sua filha reza.

Marinho agora é o último homem.

Um drible pode ser fatal…

Uma resposta a HISTÓRIA

  1. Werter de Macedo disse:

    A CBF, o Bota-Fogo e o Nautico deveriam fazer alguma coisa para ajuda-lo. Tenho certeza que a torcida ajudaria.
    Quem e esse na foto ao lado dele, Roberto? Sera o Allan Koll?

  2. Werter de Macedo disse:

    Em 1972, o grande Santa Cruz contratava o craque e ja veterano Miruca. No classic o noturno contra o Nautico Miruca seria a grande estrela, nao fosse um cabeludo de cabelos loiros. Nesse dia, o Miruca nada fez ate que parou para ver Marinho jogar. O santinha, que na epoca era uma verdadeira maquina, fez 2 a 0, mas escutando a transmissao parece que so existia Marinho em campo. Ainda me recordo da voz do saudoso Ivan Lima.. "corta Marinho de qualquer maneira" "Marinho desce pela lateral esquerda, prende a bola, articula a jogada" Eloi para Marinho,Marinho devolve para Eloi. Foi assim o jogo inteiro ate no final numa cobranca de falta, coroando a grande atuacao, Ivan Lima narraria um gol de Marinho. Marinho parte para bola,bateu! A bola passa! A bola passa! GOOOOOOOOL Nautic o, Marinho numa bela cobranca de falta.

  3. Werter de Macedo disse:

    Prezado Roberto,

    Parabens por mais essa linda cronica. Marinho foi para mim um idolo de infancia. E muito triste ver os idolos acabarem assim. Marinho era um iluminado, um fora-de-serie. Dono de um futebol vistoso e irreverente. Singular. Conseguem imaginar um lateral esquerdo cuja principal virtude era a perna direita? Assim era Marinho Chagas. Onipresente em campo. O soco que levou de Leao no intervalo do jogo contra a Polonia, em 1974, na decisao do terceiro lugar, foi o soco do despeito e da inveja. Leao queria ser a estrela da copa mas nao passava de um goleiro mediano. Sonhou com a gloria, mas a imprensa internacional so falava de Marinho. Criticou o Marinho por ter descido para apoiar o ataque brasileiro e haver deixado espaco para o contra-ataque polones que resultou no gol de Lato. Na verdade a culpa foi do poprio Leao que saiu de forma atabalhoada, ja havia um zagueiro brasileiro na cobertura, se tivesse ficado dentro da baliza teria evitado o gol polones.

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