MATÉRIA ESPECIAL

COLUNA DO CARLOS HENRIQUE: O GOL DE PLACA, 1968

O ano de 1968, apesar do hexa-campeonato conquistado em julho, não foi dos melhores para o clube timbu. No início do ano fomos eliminados da Taça Libertadores das Américas. No Torneio Início do Campeonato Pernambucano fomos eliminados logo no primeiro jogo pelo Santo Amaro (1×0). Muitos dos atletas que fizeram nome na história do clube durante a campanha dos 5 títulos consecutivos já tinham dado adeus ao Náutico. Lula, Mauro, Clóvis, Salomão, Nado, Bita, dentre outros, já não vestiam a camisa alvirrubra.

No segundo semestre daquele ano o Náutico disputou o Torneio Roberto Gomes Pedrosa, o Robertão. Nas primeiras 8 partidas disputadas obtivemos 5 derrotas e 3 empates. Uma campanha pífia, para um time hexa-campeão do estado, e vice da Taça Brasil do ano anterior.

Mesmo assim eu torcia mais que nunca pelo meu time, sofrendo com um radinho no ouvido. Como os jogos em Recife eram disputados na Ilha do Retiro, o meu pai me proibia de ir sozinho, uma vez que, além de longe da nossa casa, na época eu só tinha 10 anos de idade.

No domingo 13 de outubro chegava em Recife para enfrentar o Náutico, o poderoso Bangu, campeão carioca de 1966, e ainda invicto no Robertão de 68. O Náutico tinha em suas fileiras o meia Ladeira, ex-jogador do Bangu, que tinha participado da campanha vitoriosa do time de Moça Bonita no título de 66. Ladeira era paulista, e estava no Náutico desde 1967, onde fez parte do time penta-campeão, e era uma peça chave no meio campo timbu. Pela primeira vez, Ladeira jogaria contra seu ex-clube.

Depois de expor tudo isso ao meu pai, terminei convencendo-o de me “fazer companhia”, naquela partida. Um clássico entre alvirrubros. Acertados os ponteiros sobre o jogo, fomos curtir toda uma programação dominical. Pela manhã a praia de Piedade, com muito sol, banho de mar e agulha frita no “Sarong”. Na hora do almoço um galeto na Palhoça do Melo. Depois do almoço o meu pai foi tirar uma soneca. Eu fiquei de prontidão, sentado no chão, bem em frente à porta do seu quarto, com uma bandeira do Náutico no ombro.

A expectativa era das maiores. Estava prestes a assistir pela primeira vez o meu time do coração, hexa-campeão, vice da Taça Brasil, num jogo de campeonato brasileiro. Nas rádios só se falava de Náutico, Bangu e Ladeira, que prometia fazer um gol no jogo.

Quando meu pai acordou e abriu a porta do quarto, deu de cara com aquele fanático torcedor, de bandeira em punho, com um sorriso que ia de orelha a orelha. “Vamos embora que o jogo já vai começar”!

Entramos no Fusca (cadê o Domingos!) 65, “pé de boi”, na época o modelo mais simples da Volks, e quando meu pai dava marcha ré, para tirar o carro da garagem, POOOM!! O pior aconteceu. Veio um cara em velocidade e bateu na traseira do fusca, machucando bastante nosso carro. Desce todo mundo, confusão prá lá e prá cá. E eu sentado na calçada, desolado, vendo o tempo passar. Não acreditei no que estava acontecendo. Para mim, mais parecia um pesadelo.

Depois de tudo resolvido, meu pai P…. da vida, coloca o Fusca batido prá dentro de casa, e desiste de ir ao jogo. Fiquei desolado, chutando o vento, cabisbaixo, sem acreditar no que tinha acontecido. Tinha me preparado, me concentrado para aquele jogão. Era o Náutico de Ladeira contra o poderosíssimo Bangu de Ubirajara, Fidélis, Ari Clemente, Sabará, Aladim, e outros craques.

Tempos depois fiquei sabendo que a minha mãe chamou o meu pai, e mostrou o meu desolamento. Não sei o que ela disse a ele, mas foi o suficiente para o mesmo pegar na minha mão e dizer: “vamos embora que o jogo já vai começar”! Procuramos um taxi nas proximidades de casa, na Av. Rosa e Silva, e nada. Nem sinal de taxi. Fomos andando até a Ilha do Retiro, em marcha acelerada.

Chegando lá fomos para a arquibancada central, com um sol de rachar bem nos nossos olhos. Tive direito ao famoso “dudu”, aquele suco em saquinho plástico, que depois era insuflado de ar e pisoteado, para fazer barulho.

Do jogo em si me lembro muito bem do chutão de Zé Carlos, de fora da área, na cruzeta do gol de Ubirajara, ainda no primeiro tempo. No fim do primeiro tempo saiu o segundo gol do Náutico. Foi a primeira vitória timbu no Robertão de 68. Os jornais da época deram como autor do gol o meia Milton. Mas nas arquibancadas da Ilha todos ao nosso lado diziam que tinha sido Ladeira o autor do 2º gol. Aquela informação ficou armazenada na minha memória de uma forma tal que, mesmo se hoje, o Ladeira em pessoa aparecesse e dissesse que o gol não foi dele, eu não acreditaria.

Mas naquele domingo 13 de outubro, o gol mais bonito, o gol de placa, foi o do meu saudoso pai, que naquele momento, deixou para trás todo o aborrecimento do acidente, e transcendeu o sentimento paterno de que “vale tudo para ver a felicidade de um filho”!

Tenho na lembrança a caminhada pela Praça do Entroncamento, Rua das Creoulas, Campo do Derby, Praça do Internacional, até chegar na Ilha. Caminhei todo o tempo segurando a mão dele com a minha mão direita, e a bandeira do Náutico com a esquerda. Ele caminhava rápido e aproveitava para contar histórias do meu avô e dos meus tios, que moravam em Fortaleza.

Hoje eu não tenho mais a certeza se o Ladeira fez aquele gol. Mas o gol do meu pai, esse sim eu tenho absoluta certeza dele, feito com carinho e afeto. Não dá para esquecer!

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Uma resposta a MATÉRIA ESPECIAL

  1. João Gregório de Araújo disse:

    CARLOS HENRIQUE, PARABÉNS, SUA COLUNA TAMBÉM FOI UM GOL DE PLACA.
    MARAVILHOSA..!!
    LEMBRAR AQUELES ROMÂNTICOS TEMPOS REALMENTE NOS DEIXA MUITOS SAUDOSOS.
    PENA QUE NÃO VOLTAM MAIS NÃO É ?
    MAS QUE FAZER, A VIDA É ASSIM MESMO.
    EU VIVI ESSE TEMPO QUE VOCÊ DESCREVE AÍ EM RECIFE (1962/1965) E VI O GRANDE NÁUTICO DO HEXA, HUMILHAR O GRANDE SANTOS COM PELÉ & CIA, E O GRANDE PALMEIRAS DE ADEMIR DA GUIA & CIA, QUE ERAM OS MAIORES ELENCOS DA ÉPOCA EM PLENO PACAEMBÚ, COMO TAMBÉM ACOMPANHEI ATRAVÉS DE EMISSORAS DE SÃO PAULO, O NOSSO GRANDIOSO TIMBU VENCER OS MINEIROS CRUZEIRO E ATLÉTICO MINEIRO, NO RECÉM INAUGURADO MINEIRÃO, COM TOSTÃO, DIRCEU LOPES E NATAL PELO CRUZEIRO, E HUMBERTO RAMOS, LACI PELO ATÉTICO EM 1967.
    VI O PACAEMBU EMUDECER DIANTE DOS 4 GOLS DO SAUDOSO BITA NO GRANDE GILMAR, NUMA NOITE INESQUECÍVEL, ONDE O NÁUTICO HONROU O FUTEBOL PERNAMBUCANO E NORDESTINO.
    QUE SAUDADE MEU CARO CARLOS HENRIQUE.
    MORO EM SÃO PAULO DESDE 1966, VOU TODO ANO AO RECIFE, E RARAMENTE ME ENCORAJO A VER O TIMBU.
    INFELIZMENTE.

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