No especial do Caderno de Esportes deste domingo, o estádio do Náutico: a joia alvirrubra
Por estar fincado em um bairro nobre, o estádio do Timbu é como uma pedra preciosa, daquelas raras e de valor inestimável. No entanto, houve um tempo em que os Aflitos era um lugar pacato. As casas eram contempladas com belos jardins e não existiam grandes construções. Nessa época, a Liga de Desportos, que posteriormente passou a ser a Federação Pernambucana de Futebol, arrendou um terreno no bairro e o transformou em um campo de futebol, inaugurado no dia 4 de março de 1917. O espaço, porém, foi deixado de lado pela entidade no ano seguinte. Acabou devolvido ao empresário Frederico Lundgren. Quem fazia o Náutico na época poderia nem imaginar, mas era ali que o clube da Rosa e Silva, ainda famoso pelo time de remo, encontraria a sua casa. Pagou 250 mil réis e fez um contrato de quatro anos para ter o espaço. O Timbu gostou tanto que resolveu ficar por lá mesmo até hoje. O campo, então, deu espaço para um estádio de fato alvirrubro.
Os dois Aflitos, o bairro e a praça esportiva, cresciam verticalmente, ainda que de maneira vagarosa. Nesse cenário, o espaço foi inaugurado em 25 de junho de 1939. A estreia foi uma festa. Teria resultado tão bom para os torcedores quanto um 5×2 no Sport? Foi nesse tempo também que a posição do campo foi invertida. Segundo relatos dos jornais da época, isso aconteceu “para que os atletas ficassem sob as mesmas condições de sol e de vento”. As mudanças, todavia, foram muito além. Para os modestos padrões da época, o estádio dos Aflitos passou a ser visto como um dos mais modernos da região Nordeste. Recebeu cerca de concreto, e três degraus com a altura de 20 centímetros cada foram levantados, podendo acomodar três mil cadeiras. “Quer dizer, o torcedor levava a cadeira para o estádio”, afirma o historiador Carlos Celso Cordeiro, autor de diversas publicações sobre o futebol pernambucano e alvirrubro de coração.
Segundo ele, as mudanças na casa do Timbu foram contínuas, e os jogos seguiam junto com as reformas. Na década de 1950, os Aflitos passou a ter uma configuração que permaneceu por longas décadas. Ganhou as arquibancadas suspensas e, depois, o lendário “Balança, mas não cai”, que abrigava o placar manual. Foi com essa roupagem que o estádio viveu as maiores glórias alvirrubras. Viu Ivan Brondi, Salomão, Bita e companhia construírem a campanha do hexa estadual (1963-1968) e colocarem o Náutico na vitrine nacional com o segundo lugar na Taça Brasil, em 1967. Aliás, foi na final do Campeonato Pernambucano de 1968, na vitória de 1×0 sobre o Sport, que os Aflitos teve o seu público recorde. Cerca de 31 mil torcedores se espremeram no local.
Essa marca não foi atingida nem mesmo com a última ampliação, iniciada em 1996 e terminada em 2002. Com ela, o estádio perdeu as arquibancadas suspensas e o “Balança, mas não cai”. A extensão do campo também foi encurtada. Tudo aconteceu com a colaboração dos torcedores, que doaram parte do material de construção.
Hoje, cravado em meio a um dos bairros mais nobres do Recife, os Aflitos é sempre alvo de especulação imobiliária. A extensão de 4 mil hectares da sede do clube é um verdadeiro tesouro. “Se eu fosse um grande empresário, já teria feito uma proposta para comprá-la”, diz o ex-presidente do Náutico, Gustavo Krause. “O nosso estádio tem toda uma simbologia. Dói ter que deixá-lo, mas não podemos ficar presos à força da tradição”, acrescenta. Será que um dia os Aflitos deixará mesmo de ser a casa alvirrubra?
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