ÍDOLO

Entrevista feita por Leonardo Guerreiro com Adriano

Custou, mas saiu. O grande sonho alvirrubro de juntar, na mesma equipe, seus dois maiores ídolos nos últimos anos, enfim será concretizado. Qual torcedor do Náutico, sinceramente, já não havia imaginado unir o talento de Adriano ao faro de gol de Kuki?

Agora, falta pouquíssimo tempo para esse sonho virar realidade. Adriano Gerlin da Silva, 28 anos, resgatou todo o orgulho da torcida alvirrubra, ao encantar a todos com suas jogadas magníficas, cobranças de falta e gols, no Pernambucano de 1999. Depois, decidiu o Brasileiro daquele ano, pelo Atlético Mineiro, contra o Corinthians, terminando como vice-campeão. Mais experiente, ele coloca todo o seu talento, novamente, a serviço do Náutico.

Você está de volta ao Recife e ao Náutico, locais que te trazem boas recordações. Como se sente?

Me sinto muito feliz. É um retorno ao Recife e ao Náutico, um clube pelo qual tenho um carinho muito grande e que me projetou. Eu saí do São Paulo naquele momento, vim para cá e fiz uma excelente campanha. Foi muito bom para mim e para o Náutico porque o clube pôde resgatar a sua torcida e formar novos torcedores entre as crianças.

E essas recordações ainda estão bem presentes na memória?

Na minha primeira passagem aqui não tínhamos jogadores conhecidos, mas eram atletas que jogavam para o grupo. Foi um momento bom, no qual a união foi forte, jogamos muito bem, suávamos a camisa, fomos guerreiros e corríamos atrás dos resultados, apesar de não termos vencido o Pernambucano. Após isso, tive uma passagem no Atlético Mineiro e voltei para o Sport, onde também tive boas atuações, fiz 28 gols, fui campeão pernambucano, campeão do Nordeste e vice na Copa dos Campeões. Por pouco, não conseguimos a vaga para a Libertadores da América. No Brasileiro, ficamos entre o 5º e o 6º lugares.

O que mudou, em termos de experiência, do Adriano daquela época para o de agora?

Aprendi bastante com o futebol. Hoje, tenho uma segurança maior do que posso fazer ou do que devo fazer. O próprio entrosamento com os jogadores e com a comissão técnica, a forma de agir. O objetivo de estar conquistando algo pelo qual você trabalha com seriedade, com responsabilidade. Não vim aqui para passear. Eu estive, por duas vezes, no exterior (Suíça e Japão), quer dizer, nos lugares onde atuei, sempre fui com o objetivo de jogar o meu futebol, fazer um grande trabalho e conseguir o sucesso. Sempre fui bem-sucedido onde passei. A maturidade de hoje é representada pela tranqüilidade, pela base em termos de família, pelo comportamento dentro e fora de campo. Aprendi nessas idas e vindas e espero passar algo de bom para os jogadores mais jovens, para que eles também possam obter suas conquistas, comprando os seus imóveis e ajudando suas famílias.

Acho que tem lugar em que não dá certo. Tem lugar em que você não se encaixa bem no time, no ambiente, ou com o treinador. De repente, isso aconteceu para eu vir para o Náutico. Se eu estivesse no Bahia, não estaria aqui. Lá era um lugar onde não estava tão feliz, principalmente, porque cheguei para jogar e não vinha sendo aproveitado. Na época, eu não tive a confiança do Bobô. Depois ele foi demitido. Eu não tenho nada a reclamar do Bahia. Procurei fazer meu trabalho lá e infelizmente não deu certo. Às vezes reclamamos da vida. O importante é que hoje estou feliz no Náutico e só aguardo a minha condição de jogo para dar alegria aos torcedores.

Então o problema foi o clube mesmo e não uma questão de adaptação à cidade?

Não. Eu morei muito bem, fiz amizades com vários jogadores como Preto, Nonato, Otacílio, Valdomiro e outros que posso citar. São pessoas de família, acolhedoras e que sempre me convidavam para um aniversário ou um jantar. O ambiente com jogadores era bom. Pesou mais o problema com o treinador, acho que a questão de optar por um ou outro, não te passar confiança suficiente, te tratar como “qualquer um”. Também somos seres humanos, precisamos de compreensão e respeito. Também temos sentimentos.

Como foi o seu relacionamento com Bobô e, depois, com Evaristo de Macêdo?

Não foi…(pausa) Era normal. Com o Evaristo sempre foi muito tranqüilo, ele trata todos os jogadores bem e o pessoal gosta dele.

E no São Paulo, clube ao qual você sempre esteve ligado, o que aconteceu lá? Por que você nunca conseguiu se firmar, em termos de titularidade?

O São Paulo é um clube muito grande, com jogadores de alta qualidade. Você vê que, na minha posição, tem o Kaká, o Júlio Baptista e o Ricardinho. Tenho mais de 100 jogos como titular no São Paulo, sempre com a camisa dez, e em algumas vezes com a nove, quando deixei o Dodô e o França no banco, na época de Darío Pereyra. Tenho também mais de trinta gols marcados, inclusive, em finais. Kaká é um craque. O quanto vale o futebol dele?

Então, você disputa com um jogador de Seleção Brasileira. Isso não é o mesmo que brigar pela posição com um jogador do Íbis. Daqui a pouco, como vou ganhar do Zidane?

Se fosse melhor que ele, estaria valendo milhões de dólares, ou jogando no Real Madrid.

Você já trabalhou com o técnico Heriberto da Cunha anteriormente. Isso ajuda?

No São Paulo, quando ele era auxiliar técnico. Depois no Atlético Mineiro, quando foi assistente do Darío Pereyra. Foram duas passagens em dois grandes clubes. Temos uma grande amizade e sempre que nós trabalhamos dá certo. É bom caráter, sempre procura ajudar a todos, passando sua experiência como atleta. Ele é diferente: você trata de igual para igual.

O Náutico tem gás para chegar à Primeira Divisão?

Com certeza. Eu acredito e a equipe está demonstrando isso no campo. O grupo é forte e quando a minha documentação estiver pronta e puder jogar, me entrosar com o time, acho que somos um candidato à vaga. É claro que tem outros clubes buscando, como Botafogo, Palmeiras, Sport, Avaí e Marília. São bons times batalhando e não será fácil. Vai ter derrotas e tropeços, mas esperamos que a equipe possa ter regularidade na reta final e estar bem física e psicologicamente.

No seu entendimento, qual é a diferença entre disputar a Primeira ou a Segunda Divisão?

Confesso que é a minha primeira vez na Segundona. Creio que a diferença é em termos de campos e competitividade. Se a qualidade não é a mesma, os jogadores têm vontade, correm e brigam muito. Os jogadores querem vencer, querem ir para um clube maior, da Primeira Divisão. Acho que é natural. Hoje, estou aqui querendo que o Náutico volte à Primeira Divisão. Vim para cá com este objetivo. Se o clube subir, pretendo renovar contrato e disputar a Série A pelo Náutico. Aí brigaremos para manter o clube, o que é mais duro. O Náutico tem tradição e não pode ficar muitos anos fora da vitrine do futebol.

Nota-se uma grande gratidão sua para com o clube e sua torcida. A volta à Primeira Divisão seria um presente, uma retribuição?

Pode apostar todas as fichas. Daquela fase em que estive aqui, lembro-me de tudo: cada gol, a máscara do Mister M, o carinho do torcedor, subir no alambrado, jogar a camisa para a torcida em todos os jogos. Hoje tem o Kuki aí, que é um ídolo, excelente pessoa dentro e fora do campo, além de jogar muito bem. Nós estamos nos entendendo muito bem e na hora em que nos estrosarmos, será melhor ainda.

Na sua primeira passagem aqui, você era a estrela do elenco. Hoje, Kuki está aí como o maior ídolo nos últimos dois anos e meio. Como essa convivência entre vocês dois refletirá em campo?

Vai refletir positivamente. É o que queremos. Ele é rápido, faz gols, decide e tem muita experiência de campo. Eu tenho uma boa visão de passes, lançamentos e cobranças. Quando nos entrosarmos, não tenho dúvidas que dará certo. Assisti alguns jogos e vi como ele joga. Tem uma explosão grande, joga em direção ao gol, sabe definir. Sempre tive bom passe, sempre fui bom “garçom” por onde passei. É lógico que não vou servir só para ele, e sim, para quem estiver em melhor condição de marcar. O importante é a equipe conseguir seus objetivos. Muita gente falou que não daríamos certo juntos, mas jogaremos sempre em benefício do time.

Qual a comparação entre o elenco de 99 e o atual?

Em 99, alguns jogadores sentiam o peso do jogo, da responsabilidade, das cobranças, da casa cheia. Hoje vejo um grupo mais forte, com jogadores e uma comissão técnica mais experientes.

Por que demorou tanto para você reatar esse “relacionamento” com o Náutico?

Quero deixar bem claro que eu nunca diria que não jogaria no Náutico, ou num clube da Segunda Divisão. Foi justamente ao contrário. Como falaria isso de um lugar onde fiz tanto sucesso. Seria uma burrice muito grande, pois é um lugar onde me sinto em casa, tenho todo um ambiente favorável e todo um carinho. O pessoal sempre me ligava querendo que eu voltasse. Surgiu a oportunidade e achei que era a hora certa.

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