Abril de 1984. A Revolução completava 20 anos sob a ameaça das Diretas-Já. O romance de George Orwell era lido avidamente como profético. O Corinthians era mostrava ao país a democracia no seu elenco, onde todos mandavam e o clube conquistava títulos. Será que era a democracia quem vencia ou era o elenco com seis jogadores da seleção que fazia a diferença?
No Náutico prevalecia a ditadura Orwelliana de Enio Andrade. No Corinthians Jorge Vieira sentava no banco e assinava a súmula.
O Timbu é um bicho revolucionário, mas naquele domingo ele queria derrubar a democracia.
26.643 pagantes e uns dez mil penetras presenciaram o golpe de estado.
A Guarda Vermelha veio escalada com Mazaroppi; Vilson, Newmar, Edson Gaucho e Albéris; Alex, Baiano e Gerson; Heider, Mirandinha e Ademir.
Os Democratas com Solito; Edson, Juninho, Mauro e Vladmir; Biro-Biro, Sócrates e Zenon; Ataliba, Casagrande e Eduardo.
Nesse dia os direitistas Vilson e Heider deitaram e rolaram. Com 6’ Vilson cobra falta e Ademir toca pra Mirandinha e este abre o marcador: 1×0.
Num pênalti duvidoso em Zenon, Casagrande decreta o empate aos 36’.
Foram mexer onde não deviam. Quatro minutos depois a bola é alçada sobre a área, Edson Gaucho dá uma meia bicicleta, Solito larga a bomba e Heider enche o pé: 2×1
O segundo tempo traz o filósofo Sócrates batendo duas faltas que Mazaroppi defende. No momento seguinte uma falta para o Náutico. Newmar ensina o Doutor como deve proceder no ato cirúrgico: 3×1.
O Timbu vai pra cima. Guerra é guerra, não dá para ter pena do inimigo. 36’ Mirandinha sai driblando Deus e o diabo na terra do sol e manda um coquetel Molotov para as redes alvinegras: 4×1.
Restava a conquista do QG adversário. Paulinho sai do banco, entra em campo, pede a bola e como elemento surpresa cabeceia no contrapé de Solito. 5×1!
A democracia teria de esperar o ano seguinte com Tancredo Neves.
Pernambuco era terra de um só partido. Sem espaço para o duplipensar. E o Náutico em 1984 era o Grande Irmão*!
* Pois é, naquele tempo Big Brother não era programa de televisão, o mundo vivia o terror de um conflito nuclear e votar no Brasil pra presidente era coisa de um passado remoto.