HISTÓRIA

18 de dezembro de 1989. Estádio dos Aflitos. O Náutico enfrenta o Atlético-MG e precisa da vitória. Seu ataque é devastador com Nivaldo, Erasmo, Bizu (foto) e Augusto. Mas a sua defesa é desaconselhável para pacientes cardíacos.

Foi o melhor jogo que já assisti do Náutico, desculpem o uso da primeira pessoa, mas não há como ser impessoal nesse caso. Os outros jogos eu escrevo como observador, mas esse é especial. Foi uma experiência sobrenatural.

Eu fui apreensivo a campo acompanhado de dois amigos da faculdade: Laerte Eduardo Filho e Moyses Akhenaten. Ainda bem porque assim eu tenho testemunhas já que o Bonzão não vai aos estádios faz tempo.

Mal saímos do Vagão e sentamos na social o Náutico bate o centro Bizu toca pra Augusto que lança Nivaldo e GOL! Em apenas 8 segundos! O gol mais rápido da história dos campeonatos nacionais. 1×0.

O Timbu formou com Mauri; Levi (Jorginho), Freitas, Romildo e Junior; Gena, Erasmo (Lúcio) e Léo; Nivaldo, Bizu e Augusto. Paulo César Carpengianni era o técnico.

O Atlético vinha com Rômulo; Carlão, Batista, Mario Sérgio e Paulo Roberto; Éder Lopes, Wallace (Moacir) e Ailton; Mauricinho (Saulo), Gerson e Eder. O treinador era Jair Pereira.

A torcida imaginava que iria ser um massacre, principalmente quando Rômulo teve que se virar aos 19 e 20’ em duas defesas acrobáticas para evitar a queda de sua cidadela. Aos 27’ o Bola de Prata daquele ano Bizu cabeceia e Rômulo faz um milagre. Mau sinal. Quando um goleiro começa a defender bolas como aquela o desfecho é trágico. Foi só pensar e Ailton sobe desmarcado e empata o jogo aos 40’.

Futebol é injusto. A torcida se cala. Intervalo. O time desce de cabeça baixa.

Na volta pro segundo tempo o início se repete. Para o lado do inimigo. Aos 25 segundo Gerson recebe livre na direita e enfia uma bomba no canto de Mauri. Atlético, duas chances dois gols.

O Náutico avança. O Atlético consegue a duvidosa proeza de atuar todo o segundo tempo na defesa. Entre os 19 e 26’ Nivaldo tem três chances claras de empatar a peleja e a bola se recusa a entrar. O alvirrubro vai dando adeus à classificação.

Laerte consulta seu relógio de algibeira. O tempo está se esgotando. Moyses diz pra mim que não acredita no que está vendo. A torcida também não.

Até esse dia eu não acreditava em disco voador e paranormalidade. Só em novela e filme da sessão da tarde. Um jogador do Náutico me fez repensar a ufologia.

39’. Um bombardeio sobre a área do Galo. Trinta jogadores mineiros cercam o ataque do Náutico. Um cruzamento da direita cruza os céus. Mais alto que a defesa, mais alto que a baliza, mais alto que as torres de iluminação voa Bizu. Ele não cabeceia com força. Na verdade ele toca colocado, sutil, milimetricamente no canto de Rômulo. A bola vai decaindo fora do alcance do arqueiro que ainda tem tempo de rezar. O Atlético veio preparado para jogar contra gente de carne e osso. Bizu com o manto alvirrubro era um fenômeno.

Um grito se ergue nos Aflitos: 2×2!

Será possível? Paulo César com sua voz naturalmente de pato, no banco está rouco, sem voz.

O Atlético faz cera, retarda o reinício da partida. O tempo pára.

42’ e uma tabela encontra Bizu desmarcado na entrada da área. Ele dá um peteleco na pelota que começa a rodar em direção à meta. Lenta e maquiavélica. A bola vai sendo empurrada pelo pensamento dos milhares de torcedores no estádio. Então, silêncio.

A bola cruza a linha apenas o suficiente para tocar a rede lateral e descansar para a eternidade.

O Náutico vira: 3×2. Meus amigos se abraçam. Alguns torcedores choram.

Louco de alegria pela virada histórica eu só posso escutar a voz de um policial que me pede um favor: Que eu saia de cima do alambrado.

Até hoje eu não sei como consegui subir lá em cima.

Uma resposta a HISTÓRIA

  1. Francisco de Assis Coelho disse:

    Novamente o Náutico é derrotado dentro
    de casa e apresentando os mesmos erros:
    é um time afobado e finaliza mal. Não
    entendo porque o Náutico não toca a bola, não troca passes no meio do campo
    e prefere fazer "ligação direta", lançando a bola na área contra zagueiros com quase dois metros de altura. Alguém pode me explicar qual
    a razão dessa tática suicida, onde a bola vai e volta. E quando estamos de
    posse da bola é aquela correria e os
    chutes a ermos. Quando vamos ter um meia que carregue a bola e lançe em perfeitas condições de gol para os atacantes? Quando vamos ter um time ciente de sua capacidade para tocar a
    bola e atacar na hora certa com chutes
    precisos e certeiros? Quando? Alguém pode me responder?

  2. Jarbas Alves da Silva Junior disse:

    Hehehehehe, eu tb estava nesse jogo, so' que, nao cheguei a ver o gol mais rapido de todos os brasileiros, quando consegui entrar nos aflitos era 15, 20 minutos do primeiro tempo. Com tua narrativa voltei a viver todo o jogo. Parabens…

  3. Ulisses disse:

    Caro Roberto, Parabens pelo belo texto. Eu tambem estava na faculdade nessa epoca e me lembro bem desse jogo. O CNC eh o time dos idolos de quatro letras, Bita, Nado, Nino, Lala, Lima, Bizu e Kuki. E um de 6 letras: Baiano. Nenhuma outra torcida aqui tem idolos da quantidade e qualidade que a do Nautico tem. Espero que se repita amanha o jogo do ano passado, o de 1989 eh muito sofrimento.

    Ah, faltou voce falar que depois desse jogo, o CNC ainda tinha que ir ao Beira-Rio e ganhar lah dentro para nao cair, o que fez de forma magistral, com golaco de "Erazimo" (driblou meio time), Inter 0×1 Nautico.

    Nada eh impossivel para o Nautico, desde que a torcida empurre, e a diretoria pague os salarios!

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