Por LUCÍDIO JOSÉ DE OLIVEIRA, MDM
O tempo era o dos pentagonais e das extras. E das decisões por pênaltis. Das fases e dos turnos que eram decididos pelos grandes frente a frente em finais que se repetiam. Campeonatos longos que se arrastavam por meses, uma decisão atrás da outra. O que não faltava era emoção. Ganhava nem sempre o melhor, mas aquele que aproveitava melhor esses momentos.
O Clássico dos Clássicos do dia 12 de agosto de 1984 na Ilha do Retiro foi um desses jogos. Era a decisão do 1º turno. Jogo parelho, pau a pau, disputado até o derradeiro instante. O tempo normal terminou igual, 1×1 no placar, gols de Heider para o Náutico quando o relógio marcava a primeira meia hora de jogo, e de Careca, empatando, já na segunda fase. Empate dava prorrogação. Náutico e Sport foram para os trinta minutos decisivos, com dois tempos de quinze.
Começou a prorrogação, e o Sport afinal botou frente, 1×0, gol de Bianchi. Eram passados apenas quatro minutos. O time do Sport era muito bom. Um time que começava com o goleirão País, uma garantia. E passava pelos zagueiros Gomes e Alex, pelo volante Merica, e pelos atacantes Luiz Carlos, o goleador do time, e o arisco, driblador e também artilheiro Joãozinho, ponta esquerda dos bons. Mas a sorte esteve manifestadamente a favor do Náutico naquele dia. O empate na prorrogação veio no último toque de bola, na última volta do ponteiro, os segundos se esgotando. Nem sequer foi dada nova saída. A decisão foi para os pênaltis. E novamente a sorte estava ao lado do Náutico: 4×3 na cobrança dos tiros diretos da marca da cal.
Na realidade, era uma parada perdida, o placar adverso no finalzinho da prorrogação. A maioria da torcida timbu já tinha abandonado a Ilha, levada pela mão da velha e inseparável parceira dos últimos noves anos, a frustração de perder todos os jogos decisivos. Muitos já haviam deixado o estádio, juntavam-se à procissão dos aflitos. E poucos foram os que tiveram coragem de voltar.
É importante recordar o quadro de desespero: um lateral favorável ao Náutico estava para ser cobrado pela direita do ataque, quando estoura um tumulto daqueles, envolvendo jogadores alvirrubros, juiz, bandeirinha, o banco do Sport. Parecia o fim de tudo. Não havia tempo para mais nada. O artilheiro Baiano já se apercebera de que nada mais poderia ser feito e passava na cara do árbitro Marquezine que o Náutico “tinha perdido o turno”, vejam bem, perdido o turno, tudo estava sendo dado como perdido, porque ele, o juiz, e seu auxiliar, tinham garfado o time alvirrubro (os gravadores dos repórteres captaram tudo bem nitidamente; claro que no lugar de garfado, a palavra era outra…). Na verdade, o Náutico tivera um gol erroneamente anulado, um impedimento que não existiu. Marquezine, inclusive, deu o gol, voltando atrás para atender o bandeirinha. Pois bem, o lateral é cobrado depois de muita espera. Muitos pensavam que o árbitro ia dar o jogo por encerrado ali, naquele momento, antes da cobrança do lateral. Bola em jogo, ela é lançada na área, e lá vai encontrar o predestinado Baiano. Meio desequilibrado, num chute fraco, o artilheiro coloca a redonda mansamente no canto direito do goleiro País.
Brilhava mais uma vez a estrela de Baiano. Um gol de sorte feito no finalzinho.
Na decisão por pênaltis, mais emoção. De um lado, o goleirão País; do outro, o campeão do mundo Mazaropi. Além do título um ano antes em Tóquio, pelo Grêmio, Mazaropi tinha a seu favor um recorde no futebol carioca, 1.816 minutos sem levar gols em jogos de dois campeonatos seguidos (77-78), ainda que entre um certame e outro tivesse sua meta vazada em jogos do campeonato brasileiro. De todo modo, um recordista. Pois bem, no final da disputa, Náutico 4×3 Sport.
Mazaropi, o goleiro campeão do mundo, havia defendido incrivelmente duas das cinco cobranças. A estrela do espetáculo já não era mais o artilheiro Baiano. Um valor mais alto se alevantava. A estrela agora era ele, Mazaropi, o goleiro milagroso do dia. Na disputa, tinha ganho a parada para País.
O Náutico contou com a sorte, sem dúvida. Sem ela não teria sido campeão do 1º turno. Seria o campeão, como na realidade o foi, depois de nove anos de jejum, no final da temporada? Só os deuses do futebol sabem responder.
A nós, mortais, cabe apenas aplaudir. Ou chorar. E admitir que para cada milagre em campo, existe por trás um santo que se encarrega de sua materialização. Aqueles que revelam para nós, torcedores, seus milagrosos lances em momentos decisivos. E por tudo que aconteceu naquele fim de tarde, pelo que fizeram Baiano e Mazaropi naquele Clássico dos Clássicos de agosto de 84, não haveria exagero nenhum, para a torcida timbu, que fossem os dois heróis inscritos como santos milagrosos nos cânones do futebol.
Quando verei de novo esse náutico raçudo na ilha do mangue?
Muito boa reportagem.
Estava nesse jogo!
Tinha apenas 08 anos.
Foi minha primeira partida ao vivo.
Lembro-me como se fosse hoje, a reportagem fez só confirmar o que vi naquela tarde de Domingo inesquecível.
Detalhe, meu pai já tinha me chamado pra deixar o estádio várias vezes, mas eu insistia em querer ficar até o fim, pois minha “intuição de criança” pedia para ficarmos até o final.
Parabéns pela reportagem!