O senhor vira de lado na arquibancada. Assiste ao final do jogo entre Náutico e Portuguesa apenas com o canto do olho. Parece não querer ver o que se passa no gramado – mas não consegue evitar uma eventual olhadela furtiva. Enverga com orgulho uma camisa antiga do Timbu – tão surrada por ter visitado aquele estádio vezes sem fim. Como seu dono, que aparenta estar em algum ponto indefinido entre os 60 e os 70 anos. “É o último”, diz, quase sem acreditar no que fala. “É o último”, repete, mais para si mesmo do que para o amigo que está ao lado. Entre triste e feliz. Entre a dor da separação e a esperança. Entre os lembranças do passado e os desejos para o futuro, aquele homem reflete a dualidade que cada alvirrubro sentiu no último domingo dos Aflitos como o conhecemos.
O caldeirão que tantas vezes esquentou os adversários do Timbu virou, neste domingo, um caldeirão de emoções. O dia era especial para quem vestia vermelho e branco. Desde o início, já se sabia histórico. O estádio que viu Bita e Companhia conquistarem o hexa e encantarem o Brasil. Que abrigou Jorge Mendonça e Marinho Chagas. Que serviu de palco para Baiano e Nivaldo brilharem. Que erigiu Kuki. Esse estádio – uma construção que transcende sua estrutura em concreto- iria fazer parte apenas da memória.
Alvirrubros lotam entrada lateral do estádio. Foto: Rodrigo Lôbo/ JC Imagem
Momento de encontro entre passado, presente e – sobretudo- futuro. Olhar para trás e para frente. Era sobre isso que essa despedida tratava. Alexandre de Barros Carvalho, sobrinho-neto do Eládio que dá nome aos Aflitos, dizia-se preocupado com a mudança. “Eu, até por ter uma ligação familiar com esse estádio, acho complicado a gente sair dos Aflitos. Ele representa o Náutico. É a nossa casa. Tenho medo de perdemos a identidade”, afirmou. O advogado Sérgio Albuquerque é mais otimista. Acredita que o momento é importante para a mudança. “Estou um pouco triste porque o estádio dos Aflitos virou uma espécie de segunda casa nos últimos anos, mas torcendo para que dê tudo certo para nós na Arena Pernambuco. E tenho certeza de que o Náutico vai conquistar muita coisa lá”, garantiu.
O torcedor-símbolo Mister N se recusava a fazer a despedida do estádio. Foto: Rodrigo Lôbo/JC Imagem
A inscrição nas costas das camisas dos jogadores alvirrubros ganha eco nas arquibancadas. Aflitos Eterno. “Nunca vou esquecer desse estádio. Podemos ir para a Arena e tudo o mais, mas a gente nunca vai esquecer esse lugar”, disse. O aposentado Sebastião Balbino definiu bem. “Em algum momento isso iria acontecer. A modernização chegou. Temos de torcer para que tenhamos tantas conquistas na Arena quanto tivemos nos Aflitos”, afirmou.
E, neste pedido, falava por toda a torcida do Náutico. Com o agora antigo estádio fica uma parte da alma do clube. Que ela seja resgatada na nova casa. Que o futuro – na Arena Pernambuco dos elevadores e escadas rolantes- seja tão glorioso quanto o passado que os Aflitos do balança-mas-não-cai encerra, oficialmente, neste domingo.
Por: Rômulo Alcoforado/Blog do Torcedor
Alvirrubros,não deixem que acabem com os Aflitos,temos que organizar um movimento de repúdio a qualquer negociação que tenha como princípio derrubar o nosso charmoso estádio. Estão querendo mexer com algo muito sério que é a nossa paixão,vão botar o dinheiro no bolso e tchau. Vivemos nossa infância,adolescencia e envelhecemos naquele estádio. Não queremos modernidade,queremos nosso estádio de pé e em condiçoēs de abrigar jogos se nos der saudade.NÃO TOQUEM ! Os Aflitos é nosso.
Foi muito emocionante estar lá! Aqui dentro de mim já mora uma saudade ENORME. É um sentimento de perda e um vazio tão grande como se tivesse perdido alguém muito próximo. Gostaria de ter ficado até a última lâmpada ser apagada, mas não deu! Este time que nos envergonha me tirou essa possibilidade: estava com familiares e temendo violência no final da partida, haja visto a revolta da torcida, saí faltando cinco minutos para o final, só OUVI o gol de empate. NUNCA VOU TE ESQUECER AFLITOS! A Arena pode ser moderna, pode ter conforto, mas não terá a ALMA vermelha e branca. Nunca mais vai haver a “Avenida Alvirrubra”, nunca mais vai haver aquela aglomeração na frente da sede para esperar o TIMBUS, nunca mais vai haver o “esquenta jogo” na sede antes de entrar para o estádio, nunca mais vai haver a comemoração imediata de uma conquista em nossa sede, quilômetros nos separarão dela e muitos se dispersarão no caminho. Mas tudo vai CONTINUAR EXISTINDO na minha memória. É SÓ UM DESABAFO!