HISTÓRIA

Lamento informar aos amigos o falecimento de um notável alvirrubro. O saudoso P.I.N. Guimarães. Uso as iniciais para preservar a sua memória.

Sei que apesar do momento trágico muitos irão soltar fogos, dizer que ele já vai tarde ou mesmo beber até cair na noite de hoje.

Peço espírito cristão.

O Sr. P.I.N. Guimarães foi uma vítima do destino. Seu amor pelo Náutico era sincero.

Para os que não conheceram Pingüim, este seu apelido devido às iniciais, vou fazer um breve apanhado da sua existência na face da Terra.

Pingüim nasceu no dia 13 de agosto de 1968. Logo após o Hexacampeonato do Náutico.

Como muitas crianças da época decidiu torcer pelo alvirrubro, embora sua família não gostasse de futebol. Aliás, eles gostavam, mas como torciam por um time que não era o Náutico, não ganhava um título há séculos e que eu não ouso dizer o nome, decidiram que era melhor se interessar por música. A avó ao saber a decisão da criança parece que jogou uma maldição sobre o garoto. Não sabemos qual a maldição, mas ninguém acredita nessas coisas de maldição, não é verdade?

Os primeiros cinco anos de Pingüim foram de torcida. Mas o Náutico não ganhou nada. Aos seis anos foi morar em São Paulo e perdeu o título alvirrubro de 1974. Tanto chorou que o pai o trouxe de volta. Por infelicidade o Timbu passou mais nove anos sem ser campeão. Aliás, foi quase sempre vice.

Quando completou 15 anos o pai o mandou fazer intercâmbio nos EUA depois da decisão por pênaltis do estadual de 1983. De longe ouviu emocionado o bicampeonato alvirrubro de 84 e 85. Nesse período muitos amigos começaram a achar estranha a coincidência. Quando Pingüim estava longe o Náutico era campeão. Mas eu refutei a teoria. Pura conspiração. Coisa de quem acredita em bruxas.

Pingüim voltou em 1986 dominando o inglês. Sua volta aos gramados coincidiu com anos de derrotas. Ao terminar a faculdade foi fazer mestrado na Inglaterra. Perdeu de ver Bizu e Nivaldo. Também perdeu o título de 89.

A sua família estava eufórica. Subitamente se apaixonara novamente por futebol.

Em 1993 Pingüim voltou. Ainda em tempo de ver a final do campeonato. Saiu tarde do trabalho e só chegou a campo aos 37 minutos do segundo tempo quando o Náutico vencia o Santa Cruz por 1×0. O Santa Cruz jogando com 10 jogadores. Por coincidência o Santa Cruz marcou dois gols e foi campeão.

Um ano depois o Náutico caiu para a segunda divisão.

Pingüim jurou de pés juntos que não arredaria pé do Brasil enquanto o Náutico não voltasse para a primeira divisão. Mas desconsolado com a falência do clube aceitou o convite para trabalhar na embaixada do Brasil na Arábia Saudita.

Viajou em dezembro de 2000. Perdeu os títulos de 2001, 2002 e 2004.

Em 2005 havia poucas dúvidas entre nós que Pingüim deveria ser mantido longe. Sua família fazia tudo pra ele voltar, mas a gente escrevia dizendo que o Brasil estava muito violento. Que Recife estava infestado de tubarões. E não mencionava Kuki.

Tudo parecia em paz. Até o dia 26 de novembro de 2005.

Muitos responsabilizam o time do Náutico pela derrota. Eu também poderia me incluir entre estes tantos. Mas não posso. E agora que meu amigo Pingüim morreu posso contar a verdade dos fatos.

O Náutico não poderia vencer aquela partida. Nem em um milhão de anos. Nem com um milhão de pênaltis. Eu tive que me render às evidências. O meu amigo era uma prova do sobrenatural. Quando eu e meus amigos saímos dos Aflitos naquela noite, tristes e amargurados, um rosto conhecido veio em nossa direção com lágrimas nos olhos.

Ele. Pingüim.

Chegara de surpresa no vôo da manhã. Fizera inúmeras conexões de Riad até Recife. Esperava ver o seu time do coração vencendo pela primeira vez na vida. Não viu.

Não. Nós não matamos Pingüim naquele dia. Compreendemos que sua dor era igual a nossa. Talvez maior. Ele era uma vítima. Amava o Náutico tanto quanto nós e com uma diferença.

Amava o alvirrubro sempre na derrota.

Guardamos segredo. Fomos para casa reconfortados. Com Pingüim em campo tudo era possível. Até perder contra sete jogadores do adversário.

Pingüim arrumou suas malas e jurou nunca mais pisar em Recife. Na dúvida nós ficamos monitorando sua ausência.

Resta-me, pois meus amigos, informar o falecimento de um notável alvirrubro.

O saudoso P.I.N. Guimarães.

Morto acidentalmente esta semana em um incêndio na Califórnia, enquanto se preparava para vir assistir os jogos que podem manter o Náutico na primeira divisão.


Clique aqui e conheça o blog do alvirrubro Roberto Vieira

Uma resposta a HISTÓRIA

  1. Jorge Lazauskas disse:

    Mas , por favor , eu imploro: VAMOS ENTERRAR DE VEZ ESSA HISTORIA DE BATALHA DOS AFLITOS…

  2. Jorge Lazauskas disse:

    SENSACIONAL .Fabulosa esta matéria. Amigo , mande isso para SporTv , ESPN ou Bandeirantes e vai ser comentario por dias.
    Agora , aqui entre nós : este P.I.N. Guimarães é de verdade ???

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