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A fórmula
é ganhar o próximo jogo
Por: Frederico Kataoka - Foto: Arquivo
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Ele
ganhou sete títulos estaduais em Pernambuco
como técnico de futebol. Desses, quatro
no hexacampeonato do Náutico (1964/66/67/68).
Hoje, trabalha como comentarista numa rádio
carioca e não pensa mais em comandar um
time de futebol porque não agüentaria
correr em campo para acompanhar os jogadores de
perto por causa de uma artrose. Mesmo assim, David
Ferreira, o Duque, não descarta a possibilidade
de voltar aos gramados como um assessor tático
ou como um supervisor de qualidade. Na última
quinta-feira, o mineiro que conquistou os pernambucanos
esteve no Recife para almoçar com os amigos
e com a Imprensa e para ministrar uma palestra
num curso de treinadores. Duque conversou com
a Folha de Pernambuco e se mostrou bastante insatisfeito
com a qualidade do futebol no Brasil hoje. Ele
acredita que os jogadores estão preguiçosos,
os técnicos perderam o mando da equipe
e a Lei Pelé é prejudicial. Além
disso, revelou que chegou a freqüentar um
terreiro de macumba para o clube vencer. “Tinha
como objetivo dar ao jogador o maior respaldo
possível para ele ganhar uma partida”,
justificou.
O
que o senhor tem feito atualmente?
Eu cuido
dos meus negócios e ainda sigo dentro do
futebol. Sou comentarista no Rio de Janeiro. Não
descartei a hipótese de trabalhar em alguma
função no futebol que não
seja de técnico, como supervisor de qualidade,
assessor tático ou outra coisa nesse sentido.
Não
existe realmente nenhuma possibilidade de o senhor
voltar a treinar um time?
Não.
Fiz uma operação no joelho. Essa
operação é de artrose, o
que me impossibilita de correr. Um técnico
às vezes tem que dar uns piques. Ele precisa
correr atrás da bola, tem que procurar
o jogador, sentir o olho no olho numa conversa
com o atleta durante um treinamento ou um jogo.
Nessas condições, não tenho
mais possibilidade de ser técnico.
O
senhor tem saudade do Recife? Tem vontade de morar
outra vez aqui?
Tenho muita
saudade. Se Deus quiser, um dia volto. Vivi aqui
uma boa parte da minha da carreira vitoriosa.
Estou satisfeito de estar em Pernambuco hoje.
Quando
treinador, o senhor era chamado de linha dura.
O senhor se incomoda com esse rótulo?
Eu até
aceito porque é um elogio. Eu era um técnico
com visão do meu trabalho e as exigências
cabíveis, não impossíveis,
que pudessem ajudar no rendimento da minha equipe.
Esse rendimento incluía tudo dentro e fora
de campo. Contam muitas histórias do senhor
e o colocam como uma figura folclórica.
O
senhor se considera folclórico?
Não
sou! Não deixo nunca de fazer aquilo que
deve ser feito. Sou chamado de folclórico,
de exigente e de linha dura porque estou tentando
fazer o melhor.
O
senhor usava megafone nos treinos, não
é?
Usei por
muito tempo e tenho dois megafones em casa prontos
para uma eventual necessidade. Eu tinha três
megafones. Um deles foi dilacerado na Arábia
por um chute de um jogador. Mas sobrou dois que
guardo em bom estado.
Sobre
as concentrações, é verdade
que o senhor tinha fiscais para supervisionar
os casados que ficavam em casa?
Tinha sim.
Enquanto o jogador não se conscientiza
de que precisa ficar em casa e no trabalho, tem
que ser vigiado. Tem que ser um tipo de Dunga,
que foi um jogador mais ou menos, mas campeão
do mundo porque era rigoroso, cobrava dele mesmo.
Eu quero é isso de um jogador. Se ele for
para o bagaço, eu parto para cima dele
e mostro que não está correto.
Se
isso não é de hoje, por que os jogadores
ainda não se conscientizaram?
Porque
o jogador quer ganhar muito e trabalhar pouco.
Na profissão existem também muitas
“marias chuteiras”.É muito
avião que aparece para os jogadores. Eles
ficam indecisos em dispensar. Porém, tem
que dispensar em benefício da carreira.
O
senhor é supersticioso?
A minha
superstição tem uma razão
de ser. Preciso ter o máximo de meios para
o jogador ganhar uma partida. Se chegar um jogador
para mim e falar que precisamos fazer isso ou
aquilo dentro do ramo espiritual ou qualquer outra
coisa, eu faço. Estou do lado do jogador.
O
senhor já chegou a freqüentar um terreiro?
Lógico
que freqüentei. Tinha como objetivo dar ao
jogador o maior respaldo possível para
ele ganhar uma partida.
Qual
é a vitória que o senhor não
esquece como treinador?
Gostei
de todas as vitórias como campeão.
Agora, tem um jogo que não sai da minha
cabeça. O Náutico jogou contra o
Santos de Pelé, no Pacaembu, em 1967. Começamos
perdendo por 2x0, viramos para 4x2 até
que a partida acabou em 5x3 para o Náutico.
Foi um jogo inesquecível. O Náutico
se superou naquela partida. Muitos dos jogadores
nunca tinham andando de avião, vencemos
e saímos de campo aplaudidos. Você
ganhou sete títulos em Pernambuco.
Qual
é a fórmula para vencer o Estadual?
A fórmula
é ganhar o próximo jogo. Tem técnico
que fica preso numa programação.
O meu organograma não tem detalhes. Ganhou?
Parabéns, abraço e vamos nos preparar
para o próximo jogo. Não ganhou?
Vamos então ver os motivos que nos levaram
à derrota. Vamos fazer uma lavagem cerebral
e partir para as próximas partidas.
Como
o senhor vê o futebol em Pernambuco hoje?
O nível
está baixo, não está bom.
As equipes estão na Segunda Divisão
em âmbito nacional. Por que os clubes daqui
chegaram nesse nível de Série B?Todo
mundo quer fazer as contratações
milagrosas, aquela do bom, bonito e barato. Isso
não tem mais êxito. O que se tem
êxito hoje - isso é preciso entrar
numa programação de dois anos no
mínimo - é o aproveitamento da prata
da casa.
E
o nível dos clubes brasileiros? É
válido o título de pentacampeão
mundial?
Não
é. Poucas equipes se sobressaem. O nível
não está me agradando muito.
Houve
retrocesso?
No meu
entendimento houve um retrocesso principalmente
pelo enfraquecimento dos técnicos que foram
desautorizados no seu poder de mando.
O
que o senhor acha da Lei Pelé?
Ela é
danosa para os clubes e para os investidores.
Ela não dá garantias do aproveitamento
de um trabalho feito com correção.
Com a Lei Pelé, surgiram o empresário,
o procurador... E a regalia que os jogadores hoje
têm e não fazem uma boa prestação
de serviço. O que se quer, na verdade,
de um jogador de futebol não é escravidão,
não é submissão. O que se
quer logicamente é uma prestação
de serviço que não seja defeituosa
e não jogue por terra uma paixão
que os diretores dos clubes tinham em injetar
dinheiro para resolver alguns problemas financeiros.
Hoje, os problemas continuam e esses diretores
não injetam mais dinheiro porque viram
que colocam de um lado e o empresário pega
do outro. A Lei Pelé contribuiu decisivamente
para afastar os diretores apaixonados dos clubes.
Alguns dirigentes, como o presidente de um clube
pernambucano, deixaram de investir na base por
causa da Lei Pelé.
A
base ainda é um caminho viável?
Esse é
o único caminho para os clubes seguirem
equilibrando a receita e as despesas. Fora disso
é dar um tiro na cabeça, fazer o
errado e ficar sempre nessa aflição.
Como
está, na opinião do senhor, o atual
cenário dos técnicos no Brasil?
Está
enfraquecido. Temos uns três, quatro ou
cinco técnicos que realmente têm
projeção na carreira. Outros tantos
são inseguros porque não tomam as
decisões necessárias de maneira
que possam ter tranqüilidade para trabalhar.
Os técnicos ficam pulando de galho em galho
como verdadeiros equilibristas. Eles não
fazem mais contratos. Os clubes, então,
ficam à vontade para dispensar.
Outro
detalhe é que existem muitos técnicos
para poucos clubes. Aumentou o número de
“entregador de camisa”?
Aumentou
porque qualquer equipe agora tem supervisor, diretor
e outros nomes dados a funções que
eram dos técnicos antes. Temos comissões
técnicas inchadas para uma prestação
de serviço que fica duvidosa.
Quem
paga o preço no final das contas é
o técnico. Quais são os exemplos
de bons treinadores hoje?
Eu cito
o Leão, o Luxemburgo e o Givanildo, que
faz um trabalho muito bom no Santa Cruz.
Quais
as características os colocam no topo?
Os resultados,
o dia-a-dia, a prestação de serviço,
as exigências, o respeito aos profissionais
e o conhecimento do riscado daquele técnico
que sabe fazer uma leitura adequada de um jogo
e sabe substituir corretamente.
E
o nível dos jogadores?
Está
bagunçado. Existe uma casta muito grande
hoje em dia de jogadores em formação,
que têm insegurança. Há também
jogadores formados que querem sempre retirar o
máximo financeiramente. Então, não
há uma igualdade de idéias entre
os jogadores.
O
senhor declarou certa vez que os jogadores estão
mais preguiçosos. Por quê?
Os jogadores
estão em ritmo de funcionário público
aposentado porque ganharam o máximo de
dinheiro com o mínimo de esforço.
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