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"Kaká não,
apenas Marco Antonio
Por: Leonardo Guerreiro - Foto:
Arquivo
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Marcos Antonio Miranda
Filho, 20 anos, ou simplesmente, Marco Antonio,
é um típico filho da classe média
paulistana. Morador do bairro do Tatuapé
(Zona Leste da capital), ele começou a
treinar futebol no São Paulo desde o dente
de leite. Seu pai sustentava a casa como gerente
de uma transportadora. Sua mãe, era formada
em Letras, mas não lecionava. Abraçou
os afazeres do lar. Logo,
ele chegou aos juniores e, de lá para o
profissional, foi um "pulo". Nesta época
conheceu, treinou junto e até chegou a
substituir um dos maiores ídolos da história
recente do clube: Kaká. Como era da mesma
posição e diante da iminente saída
do craque para o exterior, as comparações
foram inevitáveis. "Seria o novo Kaká?".
Porém, o ex-alvirrubro prefere se afastar
das analogias. Quer ser visto de forma diferenciada,
por suas virtudes e valor próprio. Ao telefone,
o jogador - que tem sido utilizado como titular
pelo técnico Emerson Leão - concedeu
esta entrevista à Folha de Pernambuco.
Nela, fala da carreira, da temporada no Náutico,
do futuro e do futebol brasileiro.
Qual a importância de você ter
atuado no Náutico antes de retornar ao
São Paulo?
Saí daqui e, literalmente, não conhecia
nada do Náutico, nem do futebol pernambucano.
Depois de um ano aí, após vencer
o Estadual e disputar um Brasileiro, passei a
ser mais conhecido pela imprensa e pela torcida,
enfim, mais falado. Pude retornar ao São
Paulo, um clube maior, e ser visto como um reforço.
Ganhei em maturidade.
Você soube que, enquanto atuava no Náutico,
o Leão (o técnico do São
Paulo, Emerson Leão) procurava informações
suas?
Fiquei sabendo por vocês da imprensa, nada
diretamente. Nada que ele (Leão) tivesse
me ligado ou me procurado. Eu tinha contato com
o pessoal do São Paulo, mas nunca falei
sobre esse assunto.
Você é um jogador que veio da
base do São Paulo. Já tinha atuado
no time profissional antes de vir para o Recife?
Eu estreei na Copa do Brasil de 2003 e joguei
também no Campeonato Brasileiro. Ao todo,
foram 20 partidas, entrando dois, três minutos
e, em algumas delas, como titular. Depois eu voltei
aos juniores para disputar a Copa São Paulo,
na qual fomos vice-campeões (perdendo a
final para o Corinthians) e, em seguida, fui para
aí.
Quando exatamente você chegou ao Recife?
Você lembra?
Cheguei no dia 12 de fevereiro de 2004, logo depois
da Copa São Paulo de Juniores.
O Náutico é
um clube que também tem se preocupado com
as divisões de base. O que falta ao Alvirrubro
para, pelo menos, se aproximar do trabalho desenvolvido
no São Paulo?
Pelo que eu vi, o pessoal não tinha lugar
para treinar, corria na arquibancada, inclusive,
o pessoal do infantil e do juvenil. O São
Paulo tem um CT (Centro de Treinamento), com campos
para a molecada treinar e poder evoluir. O Náutico
até tem um CT, mas eu nunca entendi por
que o pessoal não ia treinar lá.
Quando construir um CT adequado, que tiver lugar
para isso, vai melhorar. Acho que tem que se dar
estrutura para a base porque é onde está
o futuro. E não é só campo.
O São Paulo fornece moradia, estudo, alimentação
e todo o acompanhamento necessário.
Como é atuar ao lado de Falcão,
o melhor jogador de futsal do mundo. Vocês
dão alguns conselhos para ajudar na adaptação
dele?
A gente sempre conversa porque eu até me
surpreendi com a humildade e o jeito do Falcão.
Ele se mostrou um cara totalmente dedicado e pronto
para vingar no campo também. Chegou aqui
e já fez amizade com todo mundo, ganhou
a admiração geral. Depois dos treinos,
nós sempre perguntamos se ele está
tendo alguma dificuldade. Mas, para um cara com
a habilidade dele não deve ser tão
difícil.
Ouvi falar que o Leão tem dado uma certa
liberdade a ele, para só então definir
uma função. É verdade?
Ele já falou que pretende jogar na meia.
É a posição que ele treina
e que o Leão vem utilizando, sempre do
meio para a frente. Neste setor, o Leão
sempre dá liberdade para qualquer jogador
que tem habilidade mostrar o que sabe.
De repente, vocês podem ser companheiros
no meio-de-campo, não é?(risos)
Quem sabe? Eu tenho que mostrar muito, ele também,
e tem muitos outros no elenco aptos a jogar. A
briga aqui é boa e sadia.
Como é o seu
relacionamento com o técnico Emerson Leão?
Lembro-me que, na época do Sport, ele era
bastante exigente.
E continua. Ele é muito exigente e é
por isso que as coisas dão certo. Acho
que se você coloca as coisas certas, exigindo
e tirando sempre o máximo de cada um, como
ele costuma fazer, a evolução coletiva
é grande.
Recentemente, li uma
matéria em que você rejeitava o rótulo
de o "novo Kaká". Isso te incomoda?
Não me incomoda. Sei que é uma comparação
natural pela posição, pela minha
idade, pela minha estrutura familiar, independente
de ser de classe média ou não. Acho
que isso não influencia. O que conta, na
minha opinião, é ter uma família
estruturada, como ele tinha. Quando subi (para
o profissional), em 2003, acabei estreando no
lugar dele porque ele estava com uma lesão
na coxa, logo após a final do Paulista.
Então muito se falou aqui em São
Paulo que eu era "o novo Kaká",
o cara que iria substituir o Kaká. Prefiro
ficar longe disso e tentar me apresentar de novo
à torcida como o Marco Antonio, um cara
que quer muito vencer na carreira e por isso foi
para o Náutico. Agora que voltei, quero
ser reconhecido pelo meu valor.
Mas essas comparações ressurgiram
com a sua volta?
Eles sempre falam e comentam, sabe aquelas coisas
do tipo "aquele menino é certinho,
gosta de treinar". Tem a história
da família e o pessoal quando vê
um moleque bonitinho na posição
de Kaká, já acha que é o
"novo Kaká". Eu até admiro
o Kaká. Ele é dois anos mais velho
e, por isso, sempre estava numa categoria acima.
Quando nos encontramos no profissional, por sermos
da mesma posição, nós treinávamos
juntos, mas nunca atuei com ele.
Na segunda partida da
final do Pernambucano, o meia Gil Baiano havia
sido expulso. Como foi para você assumir
a responsabilidade de ser o articulador do time
num momento em que vencer por diferença
de gols significava o título?
Não fiquei preocupado com isso. Aqui no
São Paulo, desde muito novo, a gente aprende
a assumir isso. Vestir a camisa do São
Paulo, com toda essa cobrança, já
nos dá toda a noção de como
lidar com isso. Então eu fui para o Náutico
querendo mostrar meu valor para voltar aqui ou
ir para outra equipe grande. Aquela era a minha
grande chance de poder mostrar isso, que eu havia
crescido, evoluído e que estava pronto
para assumir responsabilidades. Era um jogo diferente,
com outra motivação. O próprio
clima criado, com a torcida adversária
cantando vitória e a gente tendo que escutar.
Tudo isso mexeu com a gente. Fomos trabalhando
na semana, nos unindo e cuidando do psicológico.
No dia do jogo, entrei tranqüilo e determinado
a fazer o que fosse necessário. Felizmente,
tudo caminhou bem.
Lembro-me da bola que
bateu na bandeirinha, no lance do segundo gol.
Foi muita sorte, não?
Foi pura sorte. Inédito (risos). Com três
minutos, a gente ganhando de 1x0 e precisando
fazer, pelo menos, dois, vou roubar uma bola e
ela bate na bandeirinha (na sequência desse
lance ocorreu o 2º gol alvirrubro). Era porque
naquele dia tinha de ser nosso. Ali, a gente parou
e falou: "Hoje pode acontecer o que for que
ganharemos esse campeonato".
Os jogadores brasileiros
estão saindo, cada vez mais cedo, para
jogar no exterior. Quais os seus planos? Pretende
seguir esse rumo?
Primeiro quero concretizar o meu sonho que é
jogar aqui, o que já é difícil.
Vestir a camisa do São Paulo e permanecer
titular não é fácil. É
isso que quero. Me firmar aqui, conquistar meu
espaço, o carinho do torcedor, o respeito
da imprensa e passar a ser visto com outros olhos,
até por outros clubes. É claro que
sonho em jogar na Europa, na Seleção
Brasileira, mas isso só acontecerá
se eu me firmar.
O Náutico fez um planejamento e montou
uma equipe para subir à Série A.
O que deu errado?
Até hoje me pergunto também. O Náutico
achou as peças certas para as posições
certas. Nós nos demos muito bem, com cada
um completando o outro. Até nós
mesmos achávamos que daria para subir para
a Série A. De uma hora para outra, o Gil
Baiano machucou e ficou 40 dias parado, teve aquele
problema do Jorge Henrique (o jogador desapareceu
do clube, por influência de um empresário,
e reapareceu em Curitiba). Sabe, as coisas foram
acontecendo e nós acabamos perdendo o rumo,
que era o da Série A.
Os problemas salariais tiveram algum peso no
fracasso?
Acredito que não, até porque, isso
só foi acontecer lá pelo fim do
campeonato. É difícil. Você
está colaborando com o clube e espera o
pagamento em dia. De repente, por algum motivo,
isso não acontece. Aí, você
perde um pouco o foco, que era o acesso. Eu, pelo
menos, morava aí sozinho. Mas a maioria
tinha família, filhos, esposa, o que é
complicado. Você acaba se envolvendo com
outras preocupações porque o que
estava planejado não aconteceu. Isso é
óbvio. Não adianta ser hipócrita
e negar.
Durante a competição, veio à
tona uma denúncia de que alguns jogadores
do Náutico bebiam na concentração
com o consentimento do técnico. O que você
tem a falar sobre isso?
Não bebo, não gosto, mas também
não tenho nada contra. O atleta que tem
gosto por isso, se não atrapalhar, não
vejo problema nenhum. Agora, tem que saber a hora
certa e a quantidade também. Quando saiu
essa história a gente estava há
uns dez dias concentrado. Logo, se houve consentimento
do treinador, foi por isso. Por estarem um tempo
presos, certos jogadores que gostam e que, se
estivessem em casa, estariam tomando sua cerveja
ou outra bebida de sua predileção,
teriam sido privados. Não haveria mal nenhum
já que o jogo seria a uns cinco ou seis
dias. Isso foi uma surpresa para a gente porque,
se aconteceu dentro da concentração,
não era nem para ter saído dali.
Não sei como vazou essa informação.
Não iria acrescentar em nada. Pelo contrário,
só colocaria o torcedor e a imprensa contra
nós num momento em que o mais importante
era a união para subirmos um time de Pernambuco.
Qual a sua análise sobre a nova geração
de jogadores?
É uma safra boa e que tem tudo para, com
mais experiência, dar muito ao futebol brasileiro.
Os melhores vão saindo para o exterior,
mas vêm outros e ocupam o espaço.
Nosso futebol tem muito talento a ser cultivado.
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