|
“Hoje eu faço parte do Náutico”
21/Dez/2003
Entrevista feita por Filipe Assis com Nílson
A sabedoria popular diz que o “mundo dá muitas voltas”, fazendo com que
situações vistas como impossíveis tornem-se realidade mais rápido do que se
imagina. Numa dessas voltas, quis o destino que o goleiro Nilson fosse o mais
novo candidato a ídolo da torcida do Náutico. Certamente, essa idéia sequer era
imaginada pelo arqueiro no dia 11 de novembro do ano passado, quando, em
entrevista à Folha de Pernambuco, ele disse: “Os negros não são bem aceitos no
Náutico, por que vou me ver jogando num time desse? Para mim isso é uma
palhaçada. Não tenho nada a dizer a eles, só lamento a ignorância deles”. Nessa
época, Nílson tinha sido vítima de preconceito racial, ao ser comparado com um
macaco pela torcida do Náutico, e por isso jurou ódio ao Time da Rosa e Silva.
Pouco mais de um ano depois, o goleiro diz que tudo isso já foi superado. E a
julgar pela recepção que ele teve quando foi apresentado oficialmente como
reforço para 2004, os alvirrubros entenderam o recado, desenhando mais uma
história de ódio que virou amor.
Desde quando se especulava a sua contratação, a torcida do
Náutico demonstrava muito interesse em tê-lo como atleta do clube. Você ficou
surpreso com esse carinho demonstrado pelos alvirrubros?
Fiquei. Um dia um amigo me ligou dizendo que tinha havido uma
pesquisa na rádio perguntando qual era a preferência da torcida e eu tinha
ganhado por unanimidade. Eu fiquei surpreso, porque as pessoas ficavam pintando
uma coisa que tinha acontecido e tinha sido superada. Mas isso foi uma prova que
era somente nos 90 minutos. Tanto que, fora de campo, eu nunca tive problema com
torcedores do Santa Cruz, nem do Náutico, nem do Sport. No dia em que eu fui nos
Aflitos acertar os detalhes, alguns torcedores que estavam na sede se levantaram
das cadeiras onde estavam sentados e começaram a me aplaudir. Aquilo me
emocionou, porque mostrou que eu estava sendo bem-vindo.
Esse carinho é recíproco?
Com certeza. E irei retribuir isso dentro de campo.
É possível descrever o que significou para você ficar
praticamente sete meses afastado dos campos de futebol, já que nesse período
você atuou apenas duas vezes pelo Americano de Campos, na Série C?
Foi um momento ruim para minha vida profissional, mas sempre tem
o lado bom da coisa. Bom porque eu tinha acabado de casar e pude estar todo esse
tempo com a minha esposa, fortalecendo o nosso relacionamento. Isso me ajudou
bastante.
Além de jogar futevôlei, o que mais você fez durante esses
sete meses?
Corria, jogava futevôlei todo dia a procurei me divertir com a
minha esposa, com o tempo que sobrava para ela e conciliando com seus horários
de trabalho. Nós procurávamos estar passeando em alguns lugares, com alguns
amigos nossos, uns casais que temos amizade na nossa igreja. Além disso, fazemos
parte da liderança da igreja e estamos envolvidos numa obra social.
|
Nílson

Foto: JC Arquivo |