CNC

O Náutico é uma instituição centenária, que viveu intensamente no século XX, período no qual aconteceram as maiores transformações da sociedade organizada, em decorrência principalmente do desenvolvimento tecnológico e científico. Seria realmente um sonho se pensar nos primeiros anos do século passado em aviões supersônicos, computadores, comunicações vias satélites, Internet, telefones celulares e um mundo de coisas que se tornaram realidade no dia-a-dia.

Até os anos quarenta do século passado, podemos afirmar, o Recife era ainda uma cidade provinciana. A população da cidade girava em torno de 300 mil habitantes, enquanto hoje, circulando pelos mesmos espaços, vamos encontrar aproximadamente cinco milhões de pessoas que residem no Grande Recife, ou seja, na região metropolitana. As distâncias se multiplicaram, tudo foi descentralizado, acabando-se as facilidades do “é ali na esquina”. A era do automóvel, além de estrangular os acessos – engarrafamentos constantes –, passou a exigir em todos os espaços urbanos, pontos de estacionamento para centenas e mais centenas de carros. O transporte coletivo de qualidade, bondes e ônibus, que aproximava rapidamente os bairros da cidade, foi substituído em grande parte pelo transporte particular. Tal meio intenso de transporte sufoca sem solução previsível as ruas de uma cidade projetada nas margens do Capibaribe, para o trajeto de embarcações ao longo do rio, como também, o percorrer de carruagens por vielas e ruas, que depois foram transformadas em avenidas.

Tudo antes acontecia em torno do centro da cidade e a partir das 17 h, regra geral, já se começava a procurar o que fazer para encher o tempo, como se diz na gíria. Ir aos cinemas, sentar nos bares para se tomar uma bebida refrescante e bater papo, visitar amigos e também freqüentar os clubes sociais. Estes eram pontos de lazer de senhores importantes que residiam em suas proximidades. Exemplo marcante era o Náutico. A maioria de seus dirigentes residia no bairro dos Aflitos. No período noturno desempenhavam como divertimento, funções gerenciais no aristocrático clube da Av. Rosa e Silva.

Os grandes líderes – profissionais liberais, executivos, empresários e políticos – já não dispõem de tempo para se dedicar integralmente, como é exigido, aos clubes sociais e de atividades esportivas. Por outro lado, essas atividades passaram a ser grandes negócios, haja vista o futebol. Em síntese, todas as atividades esportivas de competição são nos dias de hoje profissionalizadas. O amadorismo nos moldes antigos chegou ao fim.

Portanto, somente elogios merecem os atuais líderes do Clube Náutico Capibaribe, que decidiram iniciar sem subterfúgios a profissionalização do nosso Náutico. Eles sabem bem o que estão fazendo, já tendo começado tal processo na área de futebol, carro-chefe dos grandes clubes esportivos.

Acreditamos que ninguém deixará de amar o clube por ter ele se transformado numa grande empresa. Pelo contrário, os alvirubros vibrarão pelo que está se concretizando, um grande salto para o Náutico viver mais um século, como uma organização competitiva e vitoriosa.

Paulo Montezuma é conselheiro do Náutico

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