35 ANOS DE LUXO

O Clube Náutico Capibaribe festeja, hoje, o 35º aniversário de sua conquista maior, o hexacampeonato pernambucano de futebol. A frustrada tentativa do Santa Cruz, em 1974, de igualar o feito alvirrubro motivou o provocativo “ hexa é luxo”, ainda preservado e atualíssimo, principalmente depois que o Sport também fracassou, em 2001, no seu propósito de quebrar a exclusividade do título que tanto orgulha o clube dos Aflitos. A partida decisiva, no dia 21 de julho de 1968, contra o Sport, é revivida pelo Jornal do Commercio, com a transcrição do capítulo do livro “Paixão e Fidelidade”, em que o médico-escritor, Lucídio José de Oliveira, aborda a grande façanha.

Hexa É Luxo!!!

HEXACAMPEÃO Na foto, o time do Náutico que iniciou a partida na batalha final do campeonato de 1968 – um gol marcado, na prorrogação, deu aos alvirrubros o ambicionado hexacampeonato: em pé (E/D): Valter Serafim, Fernando Matias, Ivan Limeira, Gena, Jardel e Toinho; agachados: Miruca, Ramos, Nino, Ivan e Lala.

“Tempos do Hexa, a conquista, a glória maior. Tempo do insuperável goleiro Lula (quantas bolas defendeste em cima da linha, cortando na garganta o grito de gol da torcida inimiga, santo Lula Monstrinho!). Coronel, Olavo, Rossi, Ladeira, Paulo Choco, gente experiente do Sul, vindo se juntar nas horas de dificuldades aos jovens reunidos e moldados por Alexandre Borges e entregues de bandeja a Alfredo Gonzalez, depois a David Ferreira, o Duque, passando antes pelas mãos de Antoninho. Tempo de China e de Rinaldo. Tempo dos Intocáveis. E da manchete que entrou para a história: Ninguém detém o Náutico! O Náutico campeão invicto em 64. Uma vitória atrás da outra, “um cacto em cima de outro cacto”, como no poema de Cassiano Ricardo, e o Náutico “chegando ao céu intacto”. Novamente campeão sem perder um só jogo, em 67. Mais de cinco anos sem saber o que é a amargura de sair derrotado dos Aflitos! Um recorde. A meia-cancha Salomão e Ivan – classe e competência. Bita, o Homem-do-Rifle. A cada jogo mais gols, justificando cada vez mais o apelido. Ao lado o mano Nado – a magia do drible fácil. E mais, completando a linha de frente, Nino e Lala – o ataque das quatro letras (as quatro letras que faziam chorar a torcida inimiga, não é isso Aramis?). Lá atrás, Gena e Gílson Saraiva, o desarme sem falta. Futebol de pura intuição e talento. E tinha ainda na lateral esquerda a bravura do insuperável Clóvis. Completando o elenco, Mauro, Gílson Costa, Toinho, Didica, Zé Carlos, Miruca, Jardel, Rato, Ramos, Ede. Quanto craque em um só time!

DOMINGO DE RAMOS – O jogo e o gol do Hexa. O estádio dos Aflitos apinhado de gente que não cabia mais. Era julho, dia 21, um domingo. O mais santo dos domingos, em todo o calendário alvirrubro. Um domingo de Ramos, o autor do gol decisivo, o tempo de jogo já na prorrogação. O Náutico hexacampeão! O comando firme e decisivo do feiticeiro Duque. No gramado, a liderança do incansável Ivan – a presença em cento e vinte e cinco dos 140 jogos da jornada épica do Hexa.

O GOL – Como foi o gol de Ramos, o gol do Hexa? – pergunta quem com menos de 40, não teve como ver o jogo. Ou aqueles que nasceram para o futebol anos depois.

Em O Náutico – a bola e as lembranças, no capítulo dedicado à epopéia do Hexa, está descrito o gol que, naquele domingo distante de julho de 68, sacramentava a maior glória alvirrubra. O gol mais importante de toda a rica história do Clube Náutico Capibaribe.

Eis a sua descrição, tal qual se encontra no livro:

‘O gol maravilhoso que decidiu o campeonato veio aos dois minutos do segundo tempo da prorrogação, precisamente 107 minutos de jogo corrido.

Dizê-lo indescritível seria repetir comodamente um lugar-comum, utilizando um artifício de retórica para registrar um fato histórico da maior relevância na vida do Clube Náutico Capibaribe. Muitos anos depois, pelo contrário, continua sendo fácil fazer-lhe a descrição. É que o lance permanece vivo, indelével, resistindo ao tempo, com todos seus detalhes gravados na memória de quantos alvirrubros tiveram o privilégio de estar presentes àquele espetáculo monumental e participar de toda aquela festa – a conquista inédita do Hexa. Festa repleta de beleza e de emoção, essa sim indescritível.

Um ataque do Sport – jogava-se o tudo ou nada da hora dramática da prorrogação – é desfeito pela segurança do lateral Toinho. A bola é esticada ao ponteiro esquerdo Ede, que se encontrava recuado, ainda no campo defensivo do Náutico, pelo lado das gerais, bem em frente ao balança-mas-não-cai, antigas cabines de rádio do velho estádio dos Aflitos. Num pique sensacional – Ede estava com todo o gás, acabara de entrar na batalha, substituindo o volante Jardel, que se esgotara na dura tarefa de defender e atacar –, o ponteiro deixa os defensores rubro-negros pelo caminho e, ao lado da área, executa o centro rasteiro, um pouco enviesado, para trás. A bola vai encontrar Ramos, o comandante do ataque, correndo de frente para o gol, pelo outro lado, na posição de meia-direita. O chute sai de primeira, igualmente rasteiro, violento, colocado, a bola entrando pertinho do poste lateral esquerdo de Miltão, goleiro do Sport. Era o gol, o delírio, a festa. O Hexa era uma realidade, por mais que parecesse um sonho!’

QUEM ERA – Antes de apresentar aos leitores o herói daquele jogo histórico, permitam-me uma digressão por um dos atalhos que conduziram o Náutico à grande conquista – o que vale também para explicar por que o destino de Ramos e o Hexa acabaram se encontrando.

Em 1968, após ter conquistado o penta, o time do Náutico, por várias razões, já não era mais o mesmo. No correr dos cinco anos de contínuas vitórias – numa trajetória ascendente que culminaria com a conquista do vice-campeonato brasileiro, através da Taça Brasil, exatamente no momento em que se festejava o penta – o elenco foi se desfalcando de algumas de suas mais destacadas estrelas. Craques como Rinaldo, Nado e Lula, mercê do futebol de elevada técnica por eles exibido nos sucessivos anos da caminhada vitoriosa, tinham deixado os Aflitos. Rinaldo, logo após o primeiro ano. Nado, em 1966, e Lula um pouco mais adiante. Os três vestiam agora camisas diferentes, eram aplaudidos por outras platéias, no Rio e em São Paulo. Bita, Mauro, Fraga, Gílson Saraiva, Salomão, também desfalcavam o Náutico. Ou por razões de ordem médica, caso dos três primeiros, ou por decisão de foro íntimo, como acontecera com os dois últimos que haviam trocado o futebol pela medicina.

Nenhum dos jogadores citados participou, portanto, da decisão contra o Sport, do jogo final do Hexa. Apenas Ivan, Nino e Lala restavam do time do início da longa caminhada, em 1963. Gena e Toinho, somente a partir do tricampeonato, em 65, passaram à condição de titular.

Para suprir as baixas, o Náutico teve que contratar novos atletas e o fez quase sempre buscando jogadores da região – Mauro, Aluísio Linhares, Benedito e Ivan Limeira, cearenses, Miruca, paraibano, Rafael, Didica, Breno e outros mais, todos daqui mesmo de Pernambuco, além de Valter Serafim, egresso do futebol paulista, mas havia anos radicado no futebol pernambucano, campeão pelo Santa Cruz e pelo Sport.

Para chegar ao hexacampeonato, em 68, em face de tanto desfalque, os dirigentes alvirrubros, vivendo o dia-a-dia do clube, sabiam muito bem que a parada iria ser duríssima. Necessário se fazia pôr à disposição do técnico David Ferreira, o Duque, um número maior de jogadores. É neste ponto que a biografia de Ramos vai se encontrar com a história do Náutico. A dele e as de Rato, de Fernando Matias e de Ede, também presentes aos Aflitos no dia da decisão, todos três com participação destacada no grande jogo.

Um quinto jogador, Nilsinho, de fora naquele domingo, vem se juntar ao quarteto acima citado, numa história em comum que têm para contar com relação à jornada do Hexa. É que todos eles se encontravam na Venezuela quando foram contratados pelo Náutico.

Foi assim: no início do ano o clube pernambucano estava participando, como representante do Brasil, da Taça Libertadores das Américas, ao lado do Palmeiras. Cabia aos dois clubes brasileiros enfrentar os representantes da Venezuela, o Deportivo Galícia e o Deportivo Português.

Em Caracas, onde no mês de fevereiro o Náutico esteve para cumprir seus compromissos, o treinador Duque, que por lá já andara treinando e fora campeão com o Tiquira y Flores, não teve dificuldade de fazer a cabeça dos cinco brasileiros, todos eles doidos para voltar ao Brasil. O Náutico era, na ocasião, um convite ao sucesso. Os dirigentes aprovaram as contratações e os cinco ‘venezuelanos’ foram assim incorporados ao elenco timbu, para a jornada árdua que se avizinhava.

Nem todos, porém, teriam igual sucesso, na experiência que iriam viver no futebol pernambucano. Nilsinho, o ausente da final, jogou apenas uma partida em todo o campeonato, enquanto Fernando Matias, zagueiro de área, tendo entrado no time somente na reta final, por força de uma contusão de Fraga e da impossibilidade de Mauro jogar, às voltas com grave problema de saúde, teve mais sorte que seu companheiro. Participou das finais, e o melhor, fazendo-se presente na foto que correu o Brasil inteiro, a do time hexacampeão.

Ramos, Rato e Ede, todos três atacantes, tiveram uma participação bem mais efetiva, os dois primeiros com status de titulares, todos três utilíssimos na conquista do Hexa.

Rato, jogando na posição de meia, no lugar de Bita, em recuperação de mais uma cirurgia a que teve de se submeter para retirada de um dos meniscos, ou eventualmente como ponteiro, em substituição a Miruca, foi o autor do importantíssimo gol que deu a vitória ao Náutico por 1×0, contra o Sport, na decisão do 1º turno. Um gol de falta, partida realizada na Ilha do Retiro, no dia 1º de maio. Jogo de portões abertos, o que quer dizer casa cheia. Em mais de uma oportunidade, Rato foi escolhido pela turma do Diário da Noite o ‘craque da rodada’, tendo contribuído com um total de cinco gols no certame.

Ede, ponteiro esquerdo, substituto eventual de Lala, também deixou seu nome inscrito na jornada do Hexa. Bastaria a jogada que antecedeu o gol de Ramos – a arrancada na base da velocidade e da raça, complementada com o passe perfeito para a conclusão do companheiro, meio gol feito – para ser levado em conta de figura importante na campanha vitoriosa.

De Ramos, diante da importância do gol que tudo decidiu, o que mais dizer ou desejar dele? O gol da prorrogação transcende, pelo seu significado, a qualquer palavra de elogio que possa receber quanto a seu desempenho técnico no correr do campeonato. Registre-se, contudo, foi um dos três principais artilheiros do time, o que só faz aumentar a nota que lhe deve ser atribuída por sua participação na conquista final.

Dois desses oito gols tiveram um peso extraordinário no balanço final da campanha alvirrubra: primeiro, o de pênalti, no jogo que abriu a série melhor de três, vitória do Náutico por 1×0, o outro, o antológico gol do Hexa, razão de tudo que está sendo escrito neste capítulo, a ele dedicado.

HOMENAGEM AO GOLEADOR – Vou deixar registrado, para fechar o capítulo, o meu testemunho de torcedor. Vale por uma homenagem a Ramos. Testemunho de quem viu o gol do Hexa de perto, presente ao estádio. De quem viu todo o lance, desde o início da jogada até o tiro fatal, com a ansiedade de quem vê os minutos se escoarem sem mudança no placar, por isso mesmo de quem está assistindo ao jogo com os olhos da alma e o coração na mão. Não esquecer que era o segundo tempo da prorrogação…

Vi o gol de Ramos de cima da arquibancada que fica por trás da barra do lado do Country. O estádio estava apinhado de gente. Às duas e meia – o jogo tinha o início marcado para três e dez – foi dada uma ordem para que os portões fossem fechados. Não cabia mais ninguém dentro dos Aflitos, mais de 22 mil torcedores acotovelados, a quase totalidade, inclusive no setor das cadeiras, de pé.

De onde me encontrava, a visão do campo ao comprido era muito boa. E embora a bola estivesse correndo na outra metade do gramado, na jogada que antecedeu o gol, o amplo domínio visual do lance me permitiu acompanhar com perfeita percepção todo o seu desenrolar. Daí assegurar que o gol de Ramos nada tem de indescritível, no sentido lato da palavra. Um gol para não ser esquecido nunca. Além de perfeito, desde a sua concepção – o passe de Toinho, a arrancada de Ede – até sua definição, com o chute de primeira, certeiro, de Ramos. Um gol que é acima de tudo emoção. Porque um gol que vale por tudo que o futebol pôde particularmente me oferecer nesses anos todo.

Não sei se continuaria gostando tanto de futebol, se não existisse na história do Náutico o gol de Ramos.

O Hexa irrealizado, no limbo das coisas que jamais aconteceram, sepultado com o desejo. Somente quem torce com paixão por um time de futebol, como é o meu caso, está emocionalmente em condições e melhor informado para entender bem o que quero dizer.

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