SÉRIE B

Quando poucos acreditavam, o novo técnico reuniu as forças do grupo alvirrubro e levou o time à classificação desta etapa da Série B, superando o maior desafio de sua recém-nascida carreira. A meta agora é a Primeirona

José Edson Marcelino de Oliveira, o Leivinha, sabe que é um obstinado. Quando pouquíssimos acreditavam, ele conseguiu classificar o Náutico à segunda fase da Série B do Campeonato Brasileiro derrubando o maior desafio de sua recém-nascida carreira de treinador. Saiu da assistência para o comando técnico de uma equipe em situação quase desesperadora. O time vinha de um período conturbado provocado pela demissão de seu antecessor, Edson Gaúcho, que saiu brigado com o grupo, ‘atirando’ para todos os lados, dasancando alguns jogadores, utilizando-se de adjetivos pouco recomendados como “vagabundo” e “malandro”. Mas não era só isso. Havia ainda o principal: a obrigação de vencer os quatro jogos que faria – Mogi Mirim, Remo, Gama e Botafogo – para obter uma das oito vagas sem precisar da ação na Justiça Comum contra a Confederação Brasileira de Futebol (CBF), para reaver os três pontos da vitória contra o Joinville, por 4×3.

O resto desta feliz história todo alvirrubro que se preze já conhece de cor. Mas ela ainda não chegou ao fim. Leivinha, um homem que não se cansa de proclamar sua fé e religiosidade, sabe que a vida é cheia de desafios. O futebol, então, nem se fala. “Nosso objetivo é chegar à Primeira Divisão e vamos lutar muito por isso. O grupo está fechado”, garante. Receita para o sucesso, ele diz não saber, mas tem algumas dicas. “Nada acontece por acaso. É necessário trabalhar muito e ter respeito, humildade e carinho com as pessoas”, diz utilizando o habitual tom cristão.

Leivinha revela que não vislumbrava assumir como o comando técnico de um clube grande, neste momento. Mas quando a diretoria o convidou para substituir Edson Gaúcho ele não pensou duas vezes, optando por antecipar o sua estréia em um ano. “Não esperava que fosse tão rápido, mas resolvi encarar o convite como um grande desafio. Era uma ótima oportunidade de mostrar o meu trabalho,” aponta.

O risco era grande mesmo, se for levado em conta a instabilidade no cargo. Ele é o quarto treinador alvirrubro somente neste ano. Antes dele, técnicos gabaritados como Givanildo Oliveira, Heriberto da Cunha e Edson Gaúcho comandaram o time sem o mesmo sucesso que Leivinha vem apresentando – nenhum deles ganhou quatro partidas seguidas, por exemplo. “Há momentos em que a coisa não acontece. Todos esses profissionais são reconhecidamente competentes… É difícil explicar porque um trabalho não dá certo. Mas quando um grupo está desunido tudo fica mais complicado”, arrisca, cauteloso.

No entanto, consegue explicar com maior clareza o sucesso que obteve ao classificar este mesmo grupo para a segunda fase da Série B. “Os jogadores já me conheciam. Tenho respeito por eles e vice-versa, e isso promove um bom ambiente de trabalho. Há disciplina, mas também há muito carinho, porque sei que liderança não se impõe, conquista-se”, diz, mostrando ser um bom observador. Foi esse o erro de seu antecessor. “Tento ser um pouco pai e psicólogo dos jogadores”, completa o treinador de apenas 41 anos.

No Náutico, desde 1999, Leivinha assimilou muitas características dos vários técnicos que passaram pelo clube, mas a maior parte de sua forma de atuar foi herdada de Muricy Ramalho, de quem foi auxiliar. “Trabalho de forma simples como ele, por isso houve uma boa sintonia entre nós”, explica.

“Durante a semana, monto o time baseado nas informações que tenho do adversário. Já na preleção, falo alguns detalhes para a fixação do grupo.” O aspecto psicológico não é escanteado. “Sempre deixo claro que temos de dar o máximo sempre, para depois não ficarmos com aquela sensação de que poderíamos ter feito mais e bater o arrependimento e a impotência”, conta.

O ambiente nos Aflitos é bem diferente, comparando-se ao do início do mês passado. O time deu a volta por cima, venceu os quatro últimos jogos da primeira fase, todos sob o comando de Leivinha, e obteve a sétima vaga no grupo dos oito. “Todos os jogos foram difíceis, por isso procuramos dar um passo de cada vez. Primeiro, foi o Mogi Mirim (3×0, nos Aflitos), depois Remo (3×1, em Belém), Gama (4×1, nos Aflitos) e Botafogo (1×0, em Niterói)”, ensina.

FUTURO – O Náutico chegou embalado ao quadrangular (do Grupo C) formado ainda por Botafogo, Remo e Marília. “Crescemos no momento certo, mas ainda não conquistamos nada”, afirma.

E apesar de Palmeiras e Botafogo estarem na briga pelas duas vagas à Primeirona, Leivinha não acredita em favoritismo. “São duas chaves fortes em que vai levar vantagem quem tiver mais vontade. Tem-se criado um fantasma em torno do extra-campo de Palmeiras e Botafogo, mas prefiro não acreditar nisso.” E o desafio de Leivinha continua.

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