HISTÓRIA

O estádio dos Aflitos recebia um público numeroso. O grosso da torcida era rubro-negra. Os alvirrubros não tinham motivos para animação. Afinal de contas, o Náutico não vinha bem. E a torcida, qualquer torcida, é meio escabreada. Quando o time não está bem, não vai lá. O jogo era pela primeira fase do returno. O Sport, o turno inicial em suas mãos, era todo tranqüilidade. Uma vitória rubro-negra, liderança do returno garantida e mais uns pontos à frente, o título estava indo para a Ilha. Ao Náutico, só a vitória interessava. E, nos Aflitos, o que não havia era tranqüilidade para se chegar a essa vitória. Lula, o central, vinha de uma contusão, estava fora do time e cedera seu lugar a Caiçara, seguro na lateral-direita porém menos eficiente no miolo da área. O deslocamento de Caiçara forçara o retorno de Sidinho, um veterano já sem muitas pernas. No outro lado, mais um problema para o técnico Palmeira,: Jaminho voltara do Fluminense, para onde se transferira no começo do ano, contundido. Ainda não ganhara condições de entrar no time. Algumas soluções foram tentadas, mas nenhuma delas dera resultado. A lateral-esquerda era o tendão de Aquiles, a dor-de-cabeça de Palmeira. Ali tinham jogado Genaro, Caiçara e até Ivanildo, mas nada dava certo.

À tarde, no dia do jogo, apesar das sensatas ponderações de Ivanildo – líder do grupo, espécie de consultor do técnico –, Palmeira se decidiu por escalar Lula naquela posição para o jogo da noite. Ivanildo tinha suas razões para discordar e ficar preocupado. Como sacudir Lula naquela fogueira, ele que vinha de uma contusão e era, afinal de contas, um estranho ali pela lateral-esquerda? Mas quem mandava no time era Palmeira. E Palmeira, como todo técnico que se preza, era cabeça-dura. Só quem mandava era ele. Lula, afinal, foi escalado para a lateral-esquerda. E fosse o que Deus quisesse.

As cismas de Ivanildo e, de resto a preocupação de toda a torcida timbu, desgraçadamente se confirmaram, mal a partida teve início: o Sport, numa jogada rápida do temível Jorge de Castro, em cima do improvisado Lula, abre a contagem logo de saída por intermédio de Tonho. Pouco tempo depois, precisamente aos 5 minutos, o goleiro Vicente, num esforço desesperado para salvar o arco em mais uma escalada rubro-negra pelo lado do atarantado Lula, contunde-se seriamente, sendo obrigado a deixar o gramado. Um agravante: naquela época não estava sendo permitida a substituição de jogadores, nem mesmo a do goleiro eventualmente contundido. Substituição do goleiro só por outro jogador que já se encontrasse em campo. Era uma dureza! Para o Náutico, uma desgraça. Lula por motivos óbvios, era o indicado para ocupar o lugar de Vicente. Uma coisa era certa: não iria fazer falta na lateral-esquerda, estava levando um banho de Jorge de Castro…

Ficando o Náutico com dez homens e com um goleiro improvisado, perdendo de 1×0 para o líder do certame, o todo poderoso Sport, e no começo do jogo, o que era de se esperar? Um massacre, claro. Muitos deixaram o estádio. Como ficar ali para a suprema humilhação, assistir, impotentes, ao rival deitar e rolar na nossa própria casa? Aconteceu, porém, o milagre: o Náutico venceu o jogo por 5×1, o maior feito de toda a sua história em uma partida isolada! Foi uma coisa fantástica, inacreditável!

O jogo – não podia ser diferente – foi dramático. Mais do que dramático, foi angustiante: aos 7 minutos, uma bola na trave do Náutico; logo em seguida, novo ataque do Sport, e, desta vez, acertaram com a meta. O “goleiro” Lula rebateu com o pé! Era assim que ele sabia jogar… E esse foi o instante mágico, todos que se encontravam no estádio tiveram esse pressentimento. A partir daquele momento luminoso, o Náutico se agigantou: a liderança e a determinação de Ivanildo, a aplicação de Sidinho e a segurança de Caiçara, a extraordinária técnica, a lucidez, de Alcidésio, Gilberto e Hélio Mota, a disposição de Djalma e o futebol arisco e inteligente de Fernandinho e Zeca. Tudo isso e a ajuda da torcida fizeram o que ninguém de sã consciência poderia imaginar. O Náutico chegava ao escorre arrasador, inacreditável, surpreendente, cinco gols a um!

Muitos quiseram voltar, mas não tiveram forças. Estáticos, encostados no balcão dos bares, debaixo das sociais ou mais adiante, copo de cerveja às mãos, não acreditavam no que estava acontecendo ali bem pertinho, o vozerio dos que permaneceram firmes, a vibração dos locutores, o Náutico virando o jogo, dando a volta por cima, o sonho… Aos 25 minutos, em belíssima jogada individual, Alcidésio empatou. Djalma fez 2×1 aos 31. Logo na saída do 2º tempo, Zeca aumentava para 3, jogando por terra e pelos ares qualquer tentativa de reação do atordoado time do Sport. E, em meio a jogadas do mais elevado padrão técnico, o Náutico foi arruinando o pobre adversário. Aos 30 minutos, marcando o ritmo, criando as jogadas, Alcidésio – a maior figura do jogo, atuando recuado na lateral-esquerda, mas saindo com a bola dominada para sua verdadeira posição, a meia-esquerda, arrumando a casa, construindo a vitória – propiciava em jogada sensacional que Hélio Mota fizesse o 4º tento. E Fernandinho, o artilheiro do time, comparecia com o seu, encerrando a contagem da goleada histórica aos 41 minutos. Todo o ataque fez gol naquela noite. Um prêmio para tanto futebol e tanta bravura.

A partida foi apitada por Mário Vianna, o árbitro nº 1 do Brasil. Após o encerramento, aproximando-se do capitão Ivanildo e apertando-lhe a mão, Mário Vianna dirigiu-lhe algumas palavras:

– “Na Seleção brasileira do ano passado, faltou a garra desse time de vocês.”

Era um desabafo. Uma referência à falta de fibra com que perdemos para os uruguaios a Copa do Maracanã. E o reconhecimento pelo que acabara de assistir, o merecido elogio aos dez bravos heróis daquela noitada inesquecível. Tinha sido realmente uma vitória de raça. Sobretudo, um dia de glória para o próprio futebol.

Uma resposta a HISTÓRIA

  1. Janaína Pagliani disse:

    Parabéns pela linda matéria. Fico muito orgulhosa, principalmente por ser neta de ALCIDÉSIO de vê que a história não está esquecida e sim muito bem guardada no coração de cada alvi-rubro.
    Parabéns Naútico
    Saudades meu vôzinho.

  2. Joselito Vieira do Nascimento Junior disse:

    Vamos viver o presente esse negocio de passado não existe temos que ganhar para sairmos dessa encômoda zona de rebaixamento.

  3. Edjane Souza disse:

    Cuidado coisa poderemos bater o nosso próprio recorde desse jogo histórico.

  4. Cleveson Medeiros disse:

    SEM DUVIDA UM GRANDE CLÁSSICO, DE UM LADO O NAUTICO EM CRESCIMENTO E EMBALADO PELA SUA BOA CAMPANHA DOS ULTIMOS JOGOS E JOGANDO EM CASA E DO OUTRO O SPORT VINDO DE UMA BOA VITÓRIA, TEMOS QUE JOGAR DA MESMA FORMA COM A MARCAÇÃO FIRME BOLAS RAPIDAS NO ATAQUE E NÃO SUBSTIMAR A COISA POIS ELES VÃO VIR PRA EXPULSAR ACOSTA OU OUTRO JOGADOR PARA FAVORECE-LOS COMO NO ULTIMO CONFRONTO, VAMOS TER PACIÊNCIA E NÃO ENTRAR NO JOGO DELES, E SEM DUVIDA CONSEGUIREMOS A VITÓRIA BONITA EM CIMA DE ADVERSÁRIO QUE SABE PROVOCAR, VAMOS PRA CIMA TIMBU.

  5. Edmílcio Júlio Pires disse:

    Na minha opinião será nada mais que um jogo normal que o Náuico irá fazer nesse domingo, contra um adversário mediano e assustado. Não era prá menos: vai pegar em bomba, e logo contra Geraldo/Acosta e companhia, contra o rolo compressor e massacrador nessas últimas quatro rodadas do Brasileirão. Está estampado na cara do torcedor da Coisa a tamanha preocupação. Trata-se de clássico por questão ética do confronto entre dois grandes tradicionais clubes do futebol pernambucano. Mas o melhor momento é do alvirrubro, e a lógica prevalecerá domingo, assim como aconteceu no clássico paulista entre São Paulo x Santos; deu a lógica: São Paulo vencedor. Não será diferente no próximo domingo. Ainda vou mais além: 3 x 0, no mínimo, tá de bom tamanho prá Coisa. Quem segura a dupla Gera/Acosta? Quem breca a velocidade de Marcelinho? Quem segura o torpedo de Sidiny? Do lado da Coisa só o Bala que pode preocupar.Porém, lá atrás tem o escudo humano Eduardo prá rebater essa Balinha de festejo.
    EU JÁ SABIA: NÁUTICO 3X0 COISA

Deixe uma resposta para Janaína Pagliani Cancelar resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

*


9 + 3 =

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>