Quis o destino irônico.
Náutico e Cruzeiro jogando no dia 15 de novembro.
Dia da Proclamação da República.
República que pernambucanos e mineiros sonharam com sangue.
República silenciada no esquartejamento de Tiradentes.
Nas forcas e fuzilamentos em Recife.
Frei Caneca e Tiradentes não assinariam embaixo deste feriado.
Porque hoje, comemora-se uma outra república.
Nunca a nossa República.
Hoje, meus amigos pernambucanos, nossa bandeira será vermelha e branca apenas no hemisfério sul.
Nossa bandeira terá, apenas, três estrelas.
Nossa bandeira terá, ironicamente, o azul do cruzeiro.
Mas, em nossa bandeira, brilhará um arco-íris e o sol.
Nosso vinho será a aguardente.
Nossa crença, a liberdade.
A liberdade de jogar livremente em um país de escravos.
Hoje, o Náutico joga pelo futuro.
Mas, o Náutico defende o passado de uma terra que não conhece a rendição.
Uma terra seviciada por séculos.
Esfacelada pelos ditadores de plantão.
(Alguns usando coroa real)
Uma terra que se liberta no momento de um gol.
Hoje, jogamos por uma vitória sobre a aristocracia de quem se imagina, dono da bola.
Certa vez, perguntaram a um pernambucano.
Pernambucano que se recusava a torcer por um time estrangeiro.
Basco de Casa Forte:
“Pra que perder tempo com um time do Nordeste? Vem pro Sudeste você também!”
Como se coração fosse terra de ninguém.
E a gente dissesse:
“Vai!”
E ele fosse.
“Ama!”
E ele amasse.
O coração pernambucano é terra agreste.
Silenciosa no sofrimento dos séculos.
Mas ansiosa pelos acordes do frevo da vitória.
O coração pernambucano já nasce com saudade do Bonde Farol.
Já cresce nos acordes de Vassourinhas.
Já sonha com a liberdade na Rua do Sol.
É claro que o coração pernambucano também chora.
E muito.
Porém, meus senhores, é um choro digno.
Choro de quem não se entrega jamais.
Hoje, Pernambuco será representado por 20 mil torcedores nas arquibancadas.
E onze guerreiros em campo.
Hoje, o Náutico será Pernambuco.
E o Cruzeiro pode vir, sem medo.
Tiradentes é irmão de Frei Caneca.
Não tem nada a ver com política de café com leite.
As nossas batalhas são decididas em campo.
Diferente de outras batalhas.
Vencidas nos bastidores do Poder.
A casa é simples.
O estádio foi comprado com nosso dinheiro.
Nossa riqueza, o orgulho.
Orgulho de saber, que Pernambuco carrega o vermelho e branco na sua bandeira.
Desde 1817.
Uma cruz vermelha de sangue revolucionário.
Sobre um imenso painel de branco infinito.
Pois assim somos nós.
Vermelho de luta.
Branco, de paz.
Náutico e Pernambuco.
Imortais… Imortais!
Muito bom… certamente essa falsa federação em que vivemos não era o sonho dos revolucionários. Tiradentes e Frei Caneca detestariam este feriado, eu também. Dá-lhe Náutico, dá-lhe Pernambuco.