A noite do dia 3 de agosto de 1989 foi incomum.
Náutico e Santa Cruz decidiam o título ante uma platéia reduzida.
Mínima.
Uma chuva fina caía pela noite escura empalidecendo os jogadores.
O mundo parecia mudo. Tempo surrealista.
O Brasil era livre.
Mas seu governante lembrava os tempos de ditadura.
O futuro era collorido ou petista.
Cada um julgando ser melhor que o outro.
No gramado o Náutico buscava provar o óbvio:
Era o melhor time do campeonato.
Náutico que sacrificara a Copa do Brasil.
O jogo estava sendo transmitido pela televisão.
A imensa maioria da torcida preferiu aguardar em casa.
O Arruda parecia um colosso perdido no passado.
Um minuto de silêncio pela morte de um Rei.
Luís Gonzaga estava cantando na eternidade.
A multidão que desabrigava o estádio lotara a Rua da Aurora.
A Assembléia Legislativa.
Cem mil pessoas percorreram a avenida até o local do velório.
Cem mil pessoas entoando para si a cantiga de Asa Branca.
Despedindo-se do tradutor dos seus sentimentos de solidão.
De desamparo.
Ante a lei do mais forte da política nordestina e nacional.
A manchete dos jornais no dia seguinte.
Mostrava o golaço de Erasmo.
Fintando a chuva, Deus e Valdir Peres.
No gramado enlameado do campo de jogo.
Logo abaixo vinham as imagens do enterro do Rei.
Alguns perguntam sobre o time pelo qual torcia Luís Gonzaga.
Pergunta interessante e de difícil resposta.
Luís Gonzaga foi contratado pelo Sport.
Para animar a concentração rubro negra na decisão de 1968.
Luís Gonzaga que cantou seu baião.
Para o time de Miltão e Zezinho.
Na véspera daquele histórico 21 de julho de 1968.
Fato que não modificou o destino da taça.
Luís Gonzaga que torcia por apenas um time:
A seleção de Exu.
E estamos conversados.
Os torcedores do Náutico que ficaram em casa.
Perderam uma final emocionante.
Com o Náutico largando na frente com Erasmo.
Com o Santa Cruz reagindo e empatando a partida.
Com Bizu cobrando uma penalidade máxima.
No final da peleja e confirmando mais um título alvirrubro.
Perderam muito mais.
Aquele foi o último título alvirrubro no século XX.
O que parecia impossível aconteceu.
O timaço de Erasmo, Bizu e Augusto não conquistou mais nada.
Vinte anos depois, muita gente esqueceu-se daqueles jogadores.
O tempo é uma madrasta da Branca de Neve. Pior.
Muita gente fingiu esquecer o Rei do Baião.
O maior compositor da história do Nordeste.
Os vinte anos da morte de Luís Gonzaga passaram em branco.
O motivo convém relembrar.
Porque a política detesta a tal da história.
Nos seus tempos de fama, Luís Gonzaga era de direita.
Em entrevista na revista Veja nos anos 70.
Luís Gonzaga dizia que a esquerda falava bonito.
E só.
Vez por outra lá estava Luís cantando.
Para Dutra, Moura Cavalcanti e Marco Maciel.
Heresia.
Politicamente incorreto.
Como se a gente tivesse de pensar tudo igual.
Pois foi assim que decidiram calar o Rei do Baião após sua morte.
Personagem incômodo porque tinha opinião.
Não pensava como todo artista deveria pensar.
Em tempos de bolsa-família.
A música de Luís Gonzaga é imprópria para a política local.
Dissidente.
Subversiva.
Digna de ser esquecida no subsolo da memória.
Música collorida, segundo alguns.
Pois esmola só humilha ou vicia o cidadão…
Pra terminar, um detalhe.
Luís Gonzaga com seu imenso talento.
Não poderia entrar no clube campeão de 1989 quando jovem.
Porque segundo os elegantes jornais dos anos 40 e 50.
Além de collorido, Luís era colored.