NÚMEROS

O menino é o primeiro à esquerda…

“O Náutico ia jogar em Caruaru!”

15 de novembro de 1956.

Feriado.

Pronto. Bastou isso pra desembestar o menino.

Os olhos claros se perderam na direção da bola de meia.

O menino que chegara para estudar em Caruaru, sorria:

“O Náutico ia jogar em Caruaru!”

Quando temos 13 anos, o mundo é do tamanho da nossa imaginação.

“Caiçara e Lula!”

O alvirrubro Comercial iria enfrentar o alvirrubro de Recife.

Timbu comandado pelo invicto técnico Gilberto Carvalho.

O menino chuta a bola na parede da casa.

A bola descreve um arco e balança as redes imaginárias.

Ele procura seus recortes, os cadernos.

As equações podem esperar.

O sonho de ser engenheiro também.

Como dormir?

Como conciliar o sono com a angústia dos 90 minutos mais importantes de sua vida?

Sim.

Porque jogo, ele tinha visto muito. Gol de tudo que é tipo.

Ele próprio batia um bolão.

Sabia os times todos, de trás pra frente. Os números. Os títulos.

Mas jogador da capital era diferente.

E jogador do seu idolatrado Náutico, então nem se fala.

Tarde.

Estádio Pedro Victor de Albuquerque.

O referee José Cavalcanti apita. Paulinho toca para Zezinho.

O Náutico ganhou o toss.

O Comércio se viu dominado pelo conjunto alvirrubro.

Biriba perdia todas pra Nenzinho.

As bolas chutadas por Angeluiz morriam nos braços de Cavani.

Mas o menino, perdido em sonhos, só tinha olhos para um jogador.

Um atacante de modos tão elegantes quanto incisivos.

Um atacante que tocava na bola como quem rege uma sinfonia.

Nos seus pés, a bola chegava e partia serena, escrava.

O Náutico venceu o Comércio por 4 x 0. Fácil.

Mas o menino de Tabira lembra apenas um dos gols.

Um gol para ser apenas seu até o final dos tempos.

A bola partindo dos pés do atacante alvirrubro como bólido.

Ganhando as redes do arqueiro Walter, inapelavelmente.

O primeiro gol que ele assistiu do Timbu.

O primeiro gol que ele assistiu do seu ídolo maior.

Mal sabia o Náutico. Mal sabia Ivson, autor do golaço.

Devo confessar, nem mesmo o menino que amava os números sabia.

Mas um dia, o pirralho iria escrever com hipotenusas.

Descrever as fórmulas do futebol pernambucano.

Um dia em que o pequeno fã seria o mestre:

Carlos Celso Cordeiro

Uma resposta a NÚMEROS

  1. Júlio de Lemos disse:

    Prezado e Grande ROBERTO VIEIRA,

    Escreveste com maestria!

    Parabéns, imaginei-me no lugar de Carlos Celso Cordeiro, quando, em 1974, assisti ao primeiro jogo do Náutico, na decisão contra o Santa Cruz, na melhor de três que barrou-lhe o Hexa.

    Ganhamos de 3×1, com 2 gols do saudosíssimo Paraguaio.

    Saudações Alvirrubras e vamos fazer um dever de casa com louvor, amanhã, no "Eladião", polular "Caldeirão La Timbunera"!!!!!!

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