HISTÓRIA

Ivson desvia com um toque sutil e Barbosa voa espetacularmente salvando o Santa Cruz da derrota. Foi o grande lance do jogo de reabertura dos Aflitos. Porque tricolores e alvirrubros se trancaram na defesa e seguraram o empate que não fazia mal a ninguém. Ficaram depois esperando por um tropeço do Sport diante do Vitória no prélio principal. Mas o Sport passou como bólido por cima do clube baiano. Traçaia abriu o marcador, reinaugurando o gramado dos Aflitos com um golaço, e depois Soca meteu mais duas bolas nas redes defendidas por Nadinho. O Vitória lutou até conseguir seu tento de honra numa falha de Carijó que havia substituído Baliza. A bola tocou nas costas do atacante Joãozinho e Carijó ficou sem saber o que dizer em casa. Pra quem imagina que Nadinho jogou pouco, basta observar um voo espetacular salvando mais um tento do Sport na cabeça de Naninho.

Tudo caminhava para um novo triunfo do Sport na rodada seguinte, tinha gente até profetizando um massacre, porém deixaram de avisar os alvirrubros. Os comandados por Fiorotti realizaram um jogão diante dos rivais, jogão que parecia definido com apenas cinco minutos de bola rolando com dois golaços de Hamilton. Mas Clássico dos Clássicos não ganhou esse nome por acaso, Oswaldinho diminui aos 24 e Traçaia empata aos 33 minutos. Parece que o Sport vai estragar a festa do adversário, só que Hamilton está com o diabo no corpo, no finalzinho da primeira fase aproveita duas chances e coloca 4 x 2 no placar remodelado dos Aflitos. Fatura liquidada? Nunca. Traçaia diminui de pênalti no começo do segundo tempo, o Sport ataca e o Náutico belisca. Termina o espetáculo: Náutico 4 x 3. Quatro gols do grande Hamilton e o Sport se pergunta: Conseguirá ser campeão de alguma coisa com Ivson e Hamilton juntos no ataque?

Na preliminar o Santa Cruz brilha pra cima do Vitória. Outro jogaço. Barbosa agarrando até pensamento. O Santa Cruz jogando sua melhor partida do ano com bola de pé em pé, passes matemáticos. O Vitória boquiaberto, segundo os jornais daqueles dias. Jorge de Castro recebe a pelota e deixa Guta na saudade. O cruzamento encontra Mituca no ar desferindo uma bela cabeçada para as redes do atônito Nadinho: Santa 1 x 0.

O Vitória do técnico Alaor continuou perdido em campo. Até que um lançamento de Aldemar encontra o surpreendente Luiz Marine de frente pro crime: Santa 2 x 0 na etapa inicial. Parecia muito e era pouco. Wassil entra no lugar de Isauldo, meio apagado no encontro e destoando do bando. Wassil chateado coma reserva entra possesso e acerta duas vezes o travessão baiano. No terceiro chute a bola encontra os pés de Luiz Marine: Santa 3 x 0. Alguns torcedores tricolores se beliscam nas arquibancadas do novo estádio dos Aflitos. Porém o quadro do Arruda tinha lá suas deficiências, coisas que o olhar matreiro de Waldomiro Silva não podia corrigir num curto espaço de tempo. Palito imaginou-se Domingos da Guia e brincou na frente de Zingoni. Perdeu a bola e Zingoni não teve trabalho em desviar de Barbosa. Estava de bom tamanho, mas Waldomiro teve de mexer na equipe. Marine deu lugar a Guido, Amauri cedeu o espaço para Geraldo e Tim substituiu Mituca. Com tanta gente desconhecida em campo o Vitória não se fez de rogado. Aducce diminuiu para 3 x 2. A reação ficou por isso mesmo. Os noventa minutos chegaram ao seu final. O que era festa virou dúvida novamente. Dava pra confiar num elenco tão irregular?

Não dava não. O Sport tratou logo de colocar as coisas no seu devido lugar. O Santa Cruz tinha seus rompantes de brilho, mas logo voltava ao normal. Na última rodada, uma vitória do Santa o consagraria campeão do torneio, entretanto o grupo não suportou a pressão do Leão. Barbosa fazia muita falta, apesar de poucos reconhecerem o fato. Barbosa se machuca e Mauro não confere a mesma segurança aos seus companheiros de zaga. O Santa vai logo tomando um gol de Naninho de cabeça aos 42 minutos da etapa inicial. Mal foi dada a saída e Wassil empata dando esperanças ao torcedor tricolor. Mas o preparo físico do Sport é superior. Ilo desempata aos 20 minutos da etapa e derradeira e Naninho dá números definitivos ao encontro. Sport 3 x 1 mesmo com Geo expulso por indisciplina.

Como o Sport vencera, bastava ao Náutico uma vitória sobre os baianos para comemorarem o torneio. Só que em campo a verdade deve ser escrita a cada jogo. Gago estava numa jornada infeliz e Caiçara contundiu-se no início da peleja. Como não foi feita a substituição, Alencar deitou e rolou em cima da defensiva alvirrubra. O travessão de Rosa e Silva nunca foi tão importante, Aducce e Alencar acertaram-no seguidamente sob o olhar petrificado de Celso. Como água mole em pedra dura, Reinaldo abriu o marcador para o Vitória debaixo do nariz de Eládio. Coube a Hamilton salvar a tarde mais uma vez empatando o encontro. Mesmo com o futebol vistoso do Vitória entretanto, um lance poderia ter dado números diferentes ao jogo. Aos quarenta minutos Hamilton se desloca para a esquerda marcado por Elói. Um drible de corpo e Hamilton cruza violentamente para dentro da área. O arqueiro Albertino que substituía Nadinho se atira mas é tarde demais, a pelota ganha os pés de Ivanildo. O chute sai forte e explode na trave saindo pela linha de fundo. Empate.

Náutico e Sport encerram sua participação com o mesmo número de pontos, o rubro negro com maior número de gols marcados e saldo de gols. Como não havia critério de desempate, as duas torcidas vão pra casa se achando campeãs. Até hoje.

NOTA: O texto faz parte do livro ‘Mulatos, Sifilíticos e Tarados’, escrito por este blogueiro em dezembro de 2009. Livro que repousa na estante do meu quarto. O jogo da foto é Náutico x Vitória.

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