Caos e violência oficial

Por: José Gomes Neto

Nunca pensei que fosse assistir a tamanha situação de caos envolvendo um simples jogo de futebol no Recife. Acostumado a freqüentar estádios em Pernambuco desde 1983, fazia tempo que não me impressionava tanto com uma série de acontecimentos desencontrados e também de um aparto policial, nos arredores do estádio da Ilha do Retiro, que mais lembrava os tempos dos anos de chumbo da ditadura militar. Não fosse pelo motivo das cores de Náutico e Sport, eu diria se tratar de um ambiente hostil, típico de uma guerra civil não-declarada. Aliás, é essa mesma a melhor definição do que era para ser um Clássico dos Clássicos, duelo quase centenário, que envolve duas das mais tradicionais equipes do futebol brasileiro.

Lamentar. Será só isso que nos resta? Bom, em todo clássico o clima que prevalece é aquele mesmo. Então, eu acredito que devo achar “tudo muito normal”. Caçar bruxas não é do meu feitio, mas ficar esperando por uma solução divina já é querer demais de alguém que acredita na intervenção humana, mesmo se tratando de um mundo quase que totalmente desprovido de sentimentos humanos. O caos tomou conta de corações e mentes que, sob a máscara de rivalidade, infiltrou-se entre torcedores de verdade (aqueles que apenas vão ao estádio para acompanhar os times do coração) e sempre levam a melhor. Isso é que eu não entendo e é imperdoável!

O tratamento que o torcida do Náutico teve na Ilha do Retiro foi digno de nunca mais retornar àquele lugar. Apenas um guichê para atender aos torcedores que tiveram de comprar ingresso de estudante; agressões verbais dos donos da casa e física por parte do Batalhão de Choque da Polícia Militar, com direito a spray de pimenta (porque nos olhos dos outros é refresco!), socos e pontapés. Um oficial argumentou que uma bomba de fabricação caseira fora lançada da torcida leonina para o lado dos alvirrubros. Ora, então por que ele não averiguou de quem partiu o artefato? Não seria mais sensato e lógico?

Alegar que os alvirrubros iriam à forra no momento do gol e invadir o espaço reservado aos rubro-negros é aviltar a inteligência de todo mundo! Isso é muito suspeito. Até parece que houve represália pelo gol do atacante Gilmar, e a conseqüente euforia do torcedor encurralado num trecho sórdido de arquibancada. Isso sem falar que no setor de cadeiras cativas não havia nenhum espaço reservado para o torcedor do Náutico. Cadê o Estatuto do Torcedor? Cadê o tal Tribunal de Justiça itinerante? Seria tudo isso mera ficção, ou o tratamento de um campo de concentração nazista é o modelo?

O interessante é que a gente não vê esta energia do BP Choque ser utilizada contra os vândalos da torcida amarela que barbarizam sistematicamente após todos os jogos do Sport, seja no Derby, na avenida Agamenon Magalhães e adjacências, deixando em pânico pessoas que por ali estão, apenas exercendo o direito de ir e vir. É preciso repensar seriamente esta questão, pois com este tratamento truculento e despreparado não há como convocar gente para ir assistir a um confronto naquele campo.

Muitas falhas e poucas críticas contundentes é o que leva o torcedor a refletir se, de fato, vale a pena sair de casa para se submeter a uma desventura masoquista desta natureza. Um serviço que não funciona e um aparato policial que não sabe lidar com pessoas, mas sim com animas selvagens, que precisam ser adestrados antes para só depois conviver na civilização, não é o melhor dos exemplos a ser seguido. E o pior é que ainda chamam isso de lazer e entretenimento…

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