HISTÓRIA

Tempos de chumbo. Março de 1936 e Luiz Carlos Prestes está preso. Chega ao Recife o navio ‘Manáos’. Dentro de suas masmorras, 111 presos políticos. Incomunicáveis. No mesmo dia, o América-PE celebra a vitória no Torneio Início. E o Brasil se perguntava:

Quem é a moça em companhia de Prestes?

O Vasco também chega ao Recife. Rei machucado. Rei morto, Panello no arco. Harry Welfare é o técnico disciplinador – uísque sempre ao lado. Campo da Jaqueira lotado. O Náutico enviou mensagem aos vascaínos: “Nossa sede está a sua disposição…”

Futebol ainda era disputado com fidalguia.

O Náutico forma com D. Oliveira; Edson e Salsinha; Clélio, Periquito e Taurino; Zezé, Arthur, Fernando, Estácio e Celso. O Vasco alinha Panello; Poroto e Itália; Oscarino, Zarzur e Gringo; Orlando, Ladislau, Nena, Kuko e Luna.

O Vasco que será o campeão carioca de 1936 na versão da Federação Metropolitana de Desportos (FMD). O Vasco libertário que atuava de camisas negras, sem diagonais, tal e qual os fascistas italianos na Copa da França em 1938. Mera coincidência.

27 de março de 1936. Toss favorável ao Vasco, saída do Náutico com Fernando Carvalheira. Orlando recua para Ladislau que solta a bomba. Gol do Vasco. O keeper alvirrubro nada pode fazer. A platéia silencia. Os cariocas vão golear. Mas ao contrário do que imaginam os torcedores, o time pernambucano pressiona furiosamente os vascaínos. Panello realiza defesas arrojadas. Itália despacha pro lado que está virado. O intervalo chega com o placar em 1×0.

Zezé e Arthur se conhecem do berço. Gringo dá bobeira e Arthur recebe passe milimétrico do irmão Fernando. O chute sai forte, alto, indefensável: Náutico 1×1.

Será?

O jovem time dos Aflitos sonha que tudo é possível. Eis que surge um pênalti, convertido pelo endiabrado Fernando; Fernando que nunca perdeu um pênalti em sua vida de jogador. O resultado de 2×1 surpreende até os mais aficcionados dos Timbus. Mas o Vasco era o Vasco da Gama. Bastaram dois minutos de distração e Nena empata e vira para o quadro número um dos portugueses. Bastaram dois cochilos da retaguarda e o placar registra Vasco 3×2.

O Náutico se lança ao ataque. Erro. Orlando em dois contra-ataques decreta o escore de 5×2, inapelável. Os meninos de Rosa e Silva descobrem da maneira mais cruel que não se pode dar bobeira com um quadro de primeira grandeza como o da Cruz de Malta.

Fim de jogo. O país mergulha nas sombras da ditadura varguista. Torturas, assassinatos, falsos suicídios, censura, proibição do hino de Pernambuco e dos demais estados, proibição das bandeiras, culto a personalidade.

Lá se vão 75 anos de confrontos.

E o nome da moça era Olga..

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