Mauro Galvão

Galvão quer mostrar seu valor

Por: Leonardo Guerreiro – Foto: Arquivo

O gaúcho Mauro Galvão, 43 anos, tem um novo desafio. Durante 23 anos este ex-zagueiro parou, com rara competência, os atacantes adversários. Inclusive na Seleção Brasileira, que defendeu em duas Copas do Mundo (1986 e 1990) e na Copa América. Agora, na condição de treinador e tendo assumido o Náutico com a saída de Heron Ferreira, ele tem a missão de ajustar a equipe e acabar de vez com a desconfiança dos que o julgaram inexperiente para o cargo. Simpático, ele recebeu a Folha de Pernambuco e concedeu esta entrevista.

Como jogador você atingiu o topo da carreira. Poderia fazer um resumo da sua trajetória?
Comecei no Internacional/ RS, aos 17 anos, vindo da base do Grêmio. Mas o Grêmio, naquela época, dava preferência à política de contratar jogadores prontos. O Inter, por sua vez, já aproveitava mais os jogadores jovens. Apareceu uma oportunidade, eu conversei com a minha famíliar e fui para o Beira-Rio. Joguei no Inter de 1979 até 1986. Com o Ênio Andrade como treinador fomos campeões brasileiros invictos em 1979. Além do Brasileiro, venci quatro Gaúchos, copas e torneios. Depois fui para o Bangu/RJ, que era um time menor, mas que estava na moda porque foi justamente um ano depois que eles haviam decidido o Brasileiro, contra o Coritiba. O Carpegiani (Paulo César Carpegiani) me chamou e eu aceitei. Já era o momento de sair do Inter. Joguei até 1987 no Bangu, onde conquistei uma Taça Rio, um título importante para mim e para o clube. De 1988 a 1990, joguei no Botafogo, no qual fui bicampeão carioca, depois de 21 anos. Em 1990, atuei no Lugano (Suíça). Fiquei lá até 1996, onde fui campeão da Copa Suíça e disputamos a Copa da UEFA. Foi relativamente bom para um time de porte médio. Em 1996, retornei ao Grêmio e nós fomos campeões brasileiros e da Copa do Brasil. Permaneci até o primeiro semestre de 1997. Depois, fui para o Vasco. Lá, fomos campeões brasileiros (1997), da Libertadores da América e do Estadual (1998), além do Rio-SP. Vencemos também a Mercosul e a João Havelange (2000). Em 2001, retornei ao Grêmio e fomos campeões gaúchos e da Copa do Brasil. Em 2002 não consegui títulos. Parei porque era chegada a hora.

Quando você chegou ao Botafogo, já como treinador, quem o antecedeu no comando?
Levir Culpi. Ele tinha dirigido na Segundona e a equipe subiu, mas ficou um “resquício de Segunda Divisão”. Ficou abaixo do necessário para disputar a Série A. Este foi, justamente, um dos fatores pelos quais eu sentia a equipe prejudicada. Na Série A, é preciso mais. É outro nível de exigência, bem maior. Quando você faz uma Série B e passa para a A, não pode pretender continuar com o mesmo time. Não há como atingir sucesso assim. É preciso melhor preparação e qualidade.

Há pouco tempo você ainda jogava. Quando surgiu a idéia de parar e virar técnico?
Comecei pela comissão técnica do Vasco da Gama, como auxiliar, quando o treinador era o Antônio Lopes. No mesmo ano, ele acabou saindo e eu tive de assumir o time, em 2003, numa situação bem complicada. Eles tiveram de se desfazer de vários jogadores. No mínimo, uns 15 saíram. Mesmo assim, nós conseguimos levar o time até o final do Brasileiro e ficamos numa posição mediana. No ano seguinte (2004), fiquei até o primeiro semestre no Botafogo. Depois disso, cheguei a um acordo, visto que as coisas não estavam andando como eu pensava. Acabei saindo do Botafogo e agora estou aqui no Náutico. Quero mostrar meu trabalho no Recife. Eu estava no Grêmio. A intenção era jogar a Libertadores ainda e tentar chegar a mais um título. Infelizmente não conseguimos. Tive um problema no tendão. Com 40 anos, você começa a ter um pouco de dificuldade. Achei que talvez fosse o melhor momento de parar. Estava arriscando a saúde, arrebentar o meu tendão e a condição física já não era a mesma. Então tinha de definir: ou continuava, ou começava uma nova carreira. Optei pela segunda alternativa.

E a Seleção Brasileira?
Em 1984, joguei as Olimpíadas, em Los Angeles (EUA), quando ganhamos a medalha de Prata. Em 1986, fui a Copa do México, na qual eu não joguei, mas considero uma experiência válida, muito boa. Em 1989, fui convocado para a Copa América, que nós vencemos. Inclusive, jogamos aqui no Recife, se não me engano, contra o Paraguai. Participei das Eliminatórias e, em 1990, fui à Copa do Mundo, na Itália. Desta vez eu atuei em todos os jogos, mas, infelizmente, não trouxemos o título.

Então você se recorda do episódio da água dada pelos argentinos?
Notei que o Branco realmente não estava bem. Estava apático, meio zonzo. Ele falou para nós, no intervalo, que realmente tinha bebido algo estranho dado pelos argentinos. Acabou tendo esse problema. Era melhor ele ter saído da partida. Agora veio à tona tudo isso. É uma grande mancha para o futebol argentino. Mas eu não me espanto. Sei que eles têm essa visão: querem ganhar de qualquer jeito.

Muitos questionaram sua contratação por causa do pouco tempo como técnico. Como se sente a respeito disso?
A única forma de adquirir experiência é trabalhando. Não acho que 23 anos jogando futebol seja pouca coisa. Aliado a isso, teve o período como auxiliar na comissão técnica do Vasco, e depois dirigindo a equipe. Após isso, teve o Botafogo. Quanto mais você trabalhar, irá adquirir mais experiência. Isso não quer dizer que a minha vivência não será útil. Sempre fui um jogador participativo, como capitão das equipes, indo para as palestras e conversando diretamente com os treinadores. Isso foi importante na minha formação.

Após o fracasso na tentativa de subir à Série A, algo em que o clube investiu muito, optou-se pelo aproveitamento da base. Só que os resultados não vieram. Qual é a perspectiva com a sua chegada?
Temos de encontrar um equilíbrio entre essas duas situações: contratar os prontos e aproveitar a base. A união desses dois estilos é importante. O jogador do clube tem uma identificação grande. Os de fora vêm conferir uma certa experiência, a qualidade para que os mais novos possam atuar com tranqüilidade. Não se pode pretender que a responsabilidade fique nas costas dos mais jovens. Se você entrasse na competição para participar seria uma coisa, mas o Náutico entra para ganhar.

Como você observa a chegada dos reforços?
Boas. Teremos mais opções e a possibilidade de dar um gás novo. Seria interessante ter mais tempo para treinar e entrosar. Como não é possível, vamos buscar os resultados e, ao mesmo tempo, acertar o time. A Série B é o objetivo final.

Você encontrará o Lopes (Antônio Lopes, técnico do Coritiba) na Copa do Brasil, que foi quem você primeiro substituiu no início da carreira, não é?
O Coritiba é muito forte. Tem como característica a força dos times do Sul e o treinador eu conheço. É um grande profissional, que exige muito. Sem dúvida, será um confronto equilibrado e difícil porque o Coritiba tem muita tradição. Mas o Náutico também tem e vai se preparar da melhor forma possível. No momento certo pensaremos só na Copa do Brasil. Serão dois jogos muito intensos. É uma competição que dá projeção ao clube e não podemos ter descuidos para obtermos a classificação. Por enquanto, o foco é o Estadual.

Você já dirigiu o time em duas oportunidades e o observou numa terceira. O que achou?
Temos que melhorar. Sermos mais constantes durante os jogos e mantermos a nossa concentração. Precisamos de equilíbrio e entrarmos decididos em campo. Isso ficou evidente no jogo contra o Itacuruba (2×2). Fizemos um primeiro tempo não muito bom, um segundo tempo bom e, no final, demos uma caída e cedemos o empate. Isso demonstra falta de concentração e tranqüilidade. É claro que a chegada dos novos jogadores dará um peso maior ao time e vamos procurar colocá-los dependendo do condicionamento físico.

Por falar nisso. E quanto à atitude de Almir Sergipe no jogo contra o Palmas, pela Copa do Brasil? O que você falou para ele? Por que optou por não tirá-lo no intervalo?
Almir fez aquele gesto de silêncio para a torcida e falei para ele, no vestiário, que nunca poderia ter feito aquilo. Não gostaria que se repetisse. Ou ele entrava e pedia desculpas à torcida, ou do contrário, a situação ficaria difícil e teria que substitui-lo. Ele acabou criando um clima negativo para a equipe. A todo momento que pegava na bola, era vaiado. Foi totalmente desnecessário. Ele é jovem e não pode pegar os exemplos negativos que, infelizmente, existem no futebol.

Você e Adilson Batista (técnico do Sport) foram zagueiros e chegaram a jogar juntos. Poderia relembrar aquela época?
Ele foi um grande jogador e um bom companheiro que eu tive no futebol. Como treinador, vem fazendo um bom trabalho e iremos nos encontrar no clássico. Fui para o Grêmio em 1996 e ele já estava lá. Minha ida para lá foi em função dele. Ele iria para o exterior, mas acabou não indo. Terminamos jogando algumas partidas juntos. Em outras, atuamos no 3-5-2.

Ele me falou que você jogou uma final na vaga dele…
Foi na final do Brasileiro de 1996, contra a Portuguesa. Na primeira, jogaram o Adilson e o Rivarola. Na segunda, ele não jogou. Não me recordo se ele estava machucado ou havia levado o terceiro amarelo. Era uma partida em que tínhamos de ganhar por 2×0 e todo mundo estava torcendo para a Portuguesa, que era um time muito certinho. Nós fizemos 1×0 no primeiro tempo. No segundo tempo, entrou o Zé Afonso, que hoje está no Santa Cruz, e começamos a jogar em função dele, com jogo aéreo. Pertinho do fim, lembro-me que Carlos Miguel lançou uma bola na área, o zagueiro disputou com o Zé Afonso e a bola veio para o meio. Aílton, que tinha acabado de entrar no jogo, chegou batendo de canhota e fez 2×0. Eu estava voltando da Suíça e aquilo foi muito importante para mim. Eu havia jogado no Inter e, apesar de ter ficado dez anos fora, parte dos tricolores me viam como colorado por conta da rivalidade. Após o título, tudo melhorou.

Os alvirrubros ainda podem ter esperança na conquista do Estadual ou é melhor já irem pensando na Série B?
O torcedor do Náutico tem que ter esperança e nos ajudar. A equipe está em formação e precisamos de apoio. É importante a união entre jogadores, comissão técnica, torcida e direção. Sem isso, fica difícil. Mas não vejo o Pernambucano como impossível de ser conquistado. Tudo está em aberto. Ainda temos sete jogos e confrontos diretos.

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