Após aposentadoria no gramado, herói do hexa alvirrubro virou motorista

Está estampado no escudo do Náutico, nas paredes do Aflitos, na camisa do clube, no orgulho do torcedor. Seis estrelas que resultaram no lema “Hexa é luxo”. A marca mais comentada do futebol local. Motivo de inveja para muitos e até de escudo para os tropeços do Timbu. Fonte inesgotável de discussão. Mesmo após 44 anos do feito alcançado. Tamanha conquista que se resume na figura de um atacante baixinho, que guarda aquele 21 de julho de 1968 nos mínimos detalhes. Era a prorrogação da finalíssima. Ele se posicionou na grande aréa, recebeu o passe e escorou para o gol. Estava decretada a maior sequência de títulos estaduais em Pernambuco.

O responsável pelo feito é Ramos. Ele encontrou a equipe do Superesportes no palco da sua maior glória. Sentado nas sociais, de frente para o campo. Em uma manhã nublada, ele lembrou os detalhes do seu feito histórico e contou como leva a vida depois que pendurou as chuteiras. Quer dizer, ele ainda não parou de jogar. Mesmo aos 68 anos, ele trabalha como motorista do Ministério Público durante a semana e, aos sábados, tem o encontro marcado com a bola.

O começo no Náutico

A trajetória de João Reinaldo Ramos no Timbu começou e terminou junto com o hexacampeonato. Foi de 1963 a 1968. Com a camisa alvirrubra, ele disputou 124 partidas. Em 88, foi titular. Ao todo, marcou 44 gols – os números são do pesquisador Carlos Celso Cordeiro. O interesse do clube da Rosa e Silva surgiu após a disputa da Copa Libertadores da América. Na ocasião, ele defendia o Caracas, da Venezuela.

“O Caracas disputou a Libertadores contra Palmeiras, Peñarol, Universad do Chile e Universidade Cristal do Peru. Estava numa fase muito boa. Tanto o Palmeiras quanto o Náutico me queriam. Como eu conhecia o treinador Duque, aceitei o convite e não me arrependo. Fiquei muito feliz de vestir a camisa do Náutico e a nação alvirrubra também, eu acredito”, diz o ex-jogador, revelado pelo Vasco. “Me apaguei muito ao Náutico. Vim para cá. Casei e tive três filhos. Mesmo sendo gaúcho, construi a minha vida aqui”, acrescenta.

O maior feito

A longa passagem de Ramos pelo Timbu culminou com o gol do hexacampeonato. Era 21 de julho de 1968. Os Aflitos estava lotado. O público divulgado foi de 31 mil pessoas. O maior da história do estádio, que ainda iria passar por uma série de ampliações. Os dois times se encontravam na terceira partida da decisão. A primeira foi vencida pelo Timbu por 1 a 0. Na segunda, o Leão da Ilha aplicou um 3 a 2.

Até que o último jogo foi definido aos dois minutos da prorrogação. Ramos até hoje não esquece. O lateral esquerdo Toninho avançou e passou para Ede. “Me posicionei na área e só tive o trabalho de tocar para gol”, disse. “O estádio veio a baixo. A gente já estava cansado demais. Foi na prorrogação. Eu nem lembro direito como foi a comemoração. Foi muita alegria”, afirma.

O orgulho da conquista

Ramos se orgulha demais pelo que fez com a camisa do Náutico. É sempre acessível às entrevistas. Gosta de lembrar do que fez. Guarda com carinho todas as matérias que trazem a sua trajetória no clube, que se confunde com o hexa. “É muito gratificante para mim. Ter esse reconhecimento até hoje. Nunca imaginei que essa conquista iria durar tanto tempo”, declara.

Os Aflitos

Casa do Náutico, os Aflitos deixará de existir. Em breve, deve ser demolido para dar espaço a um novo empreendimento. A situação ainda é estudada pelos dirigentes alvirrubros, mas é dada como certa. Virou a grande alternativa para injetar dinheiro no Alvirrubro, que irá mandar as suas partidas na Arena Pernambuco. “É muita tristeza. O caldeirão dos Aflitos traz muitas lembranças boas. Diversos jogos a gente conseguiu virar aqui. Me lembro uma partida em que perdíamos de 2 a 0 para o Santa, mas a torcida empurrando conseguiu nos ajudar a virar o jogo.”

Vida de motorista e de peladeiro

Em 1982, Ramos decidiu parar de jogar. Iria viver no Rio de Janeiro, junto com a mãe. Foi quando os amigos insistiram para ele retornar ao Recife e lhe encaminharam para a nova profissão: a de motorista. “Através de Gena (ex-companheiro do Hexa), doutor Gustavo Krause (ex-presidente do Náutico) me convidou e eu fui trabalhar no Estado. Trabalhei em alguns órgãos. Há quatro anos, recebi um convite do desembargador Itabira Brito. Estou muito feliz com minha nova profissão”, conta o ex-atacante, que está no ramo há 18 anos, mas não esqueceu a vida de boleiro. Aos sábados, ele se arrisca em uma pelada com os antigos colegas de futebol. “Eu jogo todo sábado lá no Pina. Tem Gilson, que jogou no Sport. Grande zagueiro. São excelentes pessoas. Quando sobra uma bola, a gente encaixa ela”, conta, aos risos.

Por: Brenno Costa – Diario de Pernambuco

3 respostas a Após aposentadoria no gramado, herói do hexa alvirrubro virou motorista

  1. Jorge Baltar disse:

    Eu estava lá, vou ter muitas saudades de nosso campo.

  2. Elba disse:

    Eu também nunca esqueci aquele gol. Vi pela TV, primeira transmissão de um jogo em PE ao vivo! Era muito jovem, mas lembro que assisti toda a prorrogação de joelhos na sala da minha casa, diante da TV, rezando. Foi uma alegria muito grande, quando o juiz apitou o final da partida. Pena que no domingo passado, os jovens do marketing alvirrubro não lembraram de homenagear o responsável pela maior conquista do Náutico nos AFLITOS.

  3. José Mário disse:

    QUE PENA RAMOS. EU TAMBÉM JÁ ESTOU COM SAUDADES DO CALDEIRÃO DOS AFLITOS. GRANDES EMOÇÕES PASSAMOS ALÍ. ATUALMENTE OS JOGADORES SÃO OU MERCENÁRIOS OU DESCOMPROMISSADOS… BONS TEMPOS AQUELES…

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