Domingo fiz pela última vez o ritual que, desde que me entendo por gente, repito toda semana. Falar dos aflitos é lembrar da minha infância e adolescência. Digo, sem medo de errar, os Aflitos é minha segunda casa!
Os domingos na piscina, as peladas do domingo na quadra, as saídas do colégio para assistir treinos, sair dos treinos e jantar a sopa em americano, as festas na sede, carnavais, jogos, entradas em campo com os jogadores, os jogos fora que ia assistir no telão da sede, preparativos para grandes festas, as amizades que fiz… O coração realmente não quer ir embora!
“É chegada a hora.
Durante oitenta e poucos anos.
Aflitos e Náutico andaram juntos.
Na alegria e na tristeza.
Na aristocracia e na dureza.
Na primeira, segunda e terceira.
Nos Bitas e nos Piratas.
Nos Nados e nos Pintados.
Nos Coles e nos Labordes.
Para o bem e para o mal.
Os Aflitos assistiram conflitos.
Com o Cruzeiro de Tostão.
Com o Bahia no Robertão.
Com o Botafogo no Brasileirão.
Os Aflitos conheceram Eládio, Deus e Josemir.
Aflitos de Sebastião Orlando.
Aflitos de Porfírios e Campos.
De Josés.
Milhares de Josés, Andrés, Lucídios e Celsos.
Milhares de alvirrubros apaixonados.
Falar dos Aflitos é falar do Clube Náutico Capibaribe.
Falar dos Aflitos é como falar da primeira namorada.
Do primeiro grande amor.
Daquele beijo na saída do cinema.
Mãos dadas.
Falar de sentimentos puros e inocentes.
Como só mesmo o amor adolescente.
De repente.
Os Aflitos ficaram pequenos diante da modernidade.
Os meninos de Rosa e Silva precisam sair de casa.
Voltar a descobrir o mundo lá fora.
Um mundo de superlativos relativos e absolutos.
Um mundo de arenas e virtualidades.
Um mundo bem diverso do Recife dos anos 30.
O coração não quer ir embora.
O coração olha pros lados.
Segura o verbo.
Derrama a lágrima silenciosa.
O coração tem razões incoerentes com o marketing.
Poder.
Grana.
Altas rodas.
O coração curte a cervejinha no Americano.
A paz de antigos carnavais vermelhos e brancos.
Nunca mais.
Está chegando o momento do nunca mais.
O momento de dizer adeus ao velho território.
Qual naves portuguesas diante das Rocas.
Diante do Tejo.
Diante do rio de nossa aldeia.
Os Aflitos assistem a tudo calados.
Imunes ao tempo e ao espaço secular.
Os Aflitos são sábios.
Terra de ferozes combates.
Espingardinhas.
Rifles.
Orlandos e Humbertos.
Monstrinhos e Mendonças.
Os Aflitos sabem que nada é eterno neste mundo material.
Imortais?
Apenas as lembranças dos garotos que sonhavam com bolas nas redes.
Garotos que viam o mundo pelos pés de Baiano.
Garotos que nem sabiam falar direito
e gritavam KUKI!
Garotos que carregarão os Aflitos no lugar mais sagrado do mundo.
Lugar da saudade.
Ternura e paixão.
Um lugar chamado carinhosamente de coração.
E no coração alvirrubro.
Os Aflitos são imensos.
Pirâmide.
Monumentos.
Jardins suspensos.
Singulares arenas da imaginação.
É chegada a hora de dizer adeus.
De descobrir novas terras.
Novos mares.
De ser grande como nosso amor pelos Aflitos.”
Por: Rafael Alves, NauticoNET
* Parte do texto foi Reprodução de Roberto Vieira.