DESPEDIDA

Por Gustavo Krause

Ano de 1954. O matuto de Vitória de Santo Antão tinha oito anos de idade. Levado pelas mãos do pai, conheci o estádio dos Aflitos e a sede do Clube Náutico Capibaribe. A partir de então, a sede do Náutico e o campo dos Aflitos passaram a ser um endereço sentimental. Comecei a entender que o nosso coração tem muitas moradas.

Para o sentir das crianças, os tempos são longos; para o olhar das crianças, tudo é grande; para a memória das crianças, o registro é tão forte que imagens remotas resistem aos maus tratos do avanço da idade. Acabara de passear sobre o solo nascido em 1917 de onde germinaria um afeto sem fim e, sob o impacto do encantamento infantil, voltei à sede e daquele momento ficaram imagens que estão guardadas com nitidez inacreditável.

Lembro-me de um lugar acolhedor e despojado: o bar da sede. Não me saem da retina, já um tanto fatigada, homens vestidos de terno branco, elegantes chapéus e um deles levando entre os dedos o charuto que, mais tarde, vim a saber que era seu companheiro inseparável. Um tipo inesquecível. Conheci o pequeno grande homem, Eládio de Barros Carvalho, a quem a história centenária do Clube incorporou como grande benfeitor.

Era um final de tarde. Não assino embaixo, mas aqueles senhores deviam estar acompanhados pelo “cachorro engarrafado”, o uísque, que, segundo Nelson Rodrigues, é, de fato, o melhor amigo do homem. Meu pai recebeu a carinhosa saudação dos amigos de juventude em nome do amor compartilhado pelo Náutico. Morava em Vitória; ganhava a vida tratando a boca dos vitorienses; e, por conta da grana curta, contribuiu, na volta ao Recife, com o Náutico, prestando, gratuitamente, os serviços de dentista aos nossos atletas. Suas viagens à capital tinham invariavelmente dois destinos: a visita do bom filho à casa materna e o reencontro do incondicional torcedor com o aconchego da casa fraterna.

Naquela tarde/noite do primeiro e inesquecível encontro com os Aflitos, depareime com outra figura que jamais se apagou de minha lembrança. Era um jovem, muito bem vestido, cabelos impecavelmente alinhados com a indispensável ajuda da brilhantina, um homem de feições bonitas acrescidas pelo fino bigode dos galãs dos anos cinquenta e eis o que mais me chamou atenção: o brilho dos sapatos de verniz  que completava o figurino da elegância. Era Ivson de Freitas, um centroavante de futebol tão refinado quanto eficiente que marcou indelevelmente sua passagem pelo clube, abençoando, a exemplo de grandes antecessores e sucessores, a camisa nove do Náutico. Dentro das chuteiras, eram seus pés que brilhavam.

Dali em diante, os Aflitos tornou-se um prolongamento da minha casa. E eu um torcedor precocemente tenso a ponto de ser acometido de enxaquecas nervosas o que, várias vezes, privou meu pai de assistir ao jogo inteiro. Ainda, hoje, quando boto os pés nos Aflitos, uma silenciosa emoção toma conta de mim. É uma sensação indescritível. E não se confunde com a euforia dos grandes feitos e o sofrimento das severas frustrações; não se esgota no prazer de partidas memoráveis ou no desgosto dos embates medíocres; não se limita à lembrança de craques consagrados e ao papel ridículo dos pernas-de-pau. Não. Não é somente isto.

A emoção é uma vertigem. É como se eu entrasse numa esfera luminosa; levitasse no espaço atemporal da infinitude; caminhasse pelo não-lugar; e, finalmente, mergulhasse em sonhos que têm formas e vida pulsando. Como os tempos mudam, eu e o Estádio dos Aflitos, unidos por uma paixão monogâmica até que a morte nos separasse, estamos condenados ao divórcio. Compreendo as razões da mudança, mas sou um inconformado com as sentenças da modernidade. Estava desolado. Desejava ardentemente que a ânsia do progresso me devolvesse com uma das mãos o que me retirava com a outra, ou seja, que me deixasse o simulacro da paisagem subtraída como se fora uma obra de arte dedicada às futuras gerações.

De repente, uma notícia me surpreendeu e aliviou as dores de uma saudade antecipada: Lucídio José de Oliveira, Carlos Celso e Roberto Vieira, estes gigantes da história e da literatura do futebol, decidiram produzir a obra de arte por mim desejada e nascida dos espíritos iluminados pela paixão clubística; uma obra com estética cinematográfica, consistência documental e requinte literário cujo nome “Adeus, Aflitos!” diz tudo ao provocar  a sensação mágica do tempo congelado e da história em movimento.

Como se não bastasse tamanho presente, sou intimado a prefaciar o livro. Aí a minha gratidão aos autores é impagável. Serei parte imerecida de mais uma obra de talentosos alvirrubros comprometidos com a dimensão humanista do futebol e com as vestes do estilo literário impecável. Em alto e bom som, devo dizer: não estou à altura do trabalho dos autores que é belo, raro e, possivelmente, único no formato proposto.

Capitulei diante do gesto gentil. No entanto, tive o bom senso de, apenas, contemplar narrativa dos fatos históricos que são a essência da obra; preferi subentender o nosso futuro na moderna Arena como a continuidade dos que tiveram a antevisão de construir a nossa história; percebi o sentido do relato sobre um estádio de futebol que sempre despertou uma relação personalíssima e deixa para nós o sopro vital de um espírito coletivo, agora, imortalizado.

Cedi ao apelo do coração. Por isso, deixei jorrar o turbilhão do sentimento pelo simples fato de que o olhar criança que, em mim, sobrevive, desconhece a despedida do adeus.

Por: Blog do torcedor
Foto: NauticoNET

16 respostas a DESPEDIDA

  1. evaldo oliveira disse:

    assisti a edição do GE deste sábado e confesso q fiquei muito emocionado as lágrimas rolaram com a matéria sobre os Aflitos, moro em Caruaru e não pude assistir tantos jogos como muitos alvirubros q aqui comentam,mas sempre q podia ia aos Aflitos e sempre fui pé quente,o DNA alvirubros vem da família do meu pai temos muitos alvirubros na família porém estou percebendo q somos os últimos moicanos pois o meu filho há um bom tempo não assisti jogos do CNC e meu sobrinho q era apaixonáutico também.pensei muito em ir pra o jogo da despedida mas não vou,este time e principalmente a diretoria não merece,vou ficar com as boas lembranças q tive nos Aflitos e sonhar com dias melhores mesmo sabendo q com esta corja q se enraizou no nosso clube vai ser muito difícil,saudações…

  2. AMB disse:

    Concordo com Ricardo. É isso mesmo. O dinheiro (como sempre) vai ficar com os dirigentes e nós vamos ficar sem estádio, sem identidade e sem memória. Deveriam, pelo menos, esperar para ver como as coisas vão ficar, antes de demolir o nosso estádio.

  3. Campos disse:

    Parabéns Krause. Você conseguiu expressar o sentimento dos velhos alvirrubros.
    O Náutico na Arena vai ficar desfigurado. É uma pena que o último time do Náutico a jogar nos Aflitos é um dos piores da sua história.

  4. Ricardo disse:

    O Botafogo do Rio de Janeiro FALIU nos anos 70/80 por causa de coisas desse tipo. Perderam tudo em General Severiano por causa de ações de empresários dentro do clube carioca que levaram o mesmo a perder todo o seu patrimonio durante quase 2 décadas. O Botafogo passou 20 anos em MArechal Hermes num campinho de várzea sem ganhar absolutamente nada. Depois de muitos anos só recuperou a sede social mais o estadio de General Severiano foi demolido e até onde sei nada o clube teve de lucro com essa maldita operação.
    Quando acabarem com os Aflitos todos verão o que vai acontecer com o Náutico. Os envolvidos vão colocar o dinheiro em seus bolsos e vão mandar o Náutico para a PQP. A m… da arena é do governo do estado e do consorcio que a construiu.
    Bando de burros são voces torcedores INOCENTES que pensam que empresários e governos batem prego sem estopa.
    Eles vão acabar com o Náutico definitivamente.

    Os que viver, VERÃO.

  5. Herbert disse:

    ACONTECE QUE A ARENA NÃO É NOSSA.

    VOCÊS PARECEM HIPNOTIZADOS, ACHAM QUE VAI SER COMO O “CAMPO” QUE MARCO MACIEL DEU AO SANTA? ACHAM QUE VAI SER COMO O CAMPO QUE FOI DADO EM 1950 AO SPORT?

    A HISTÓRIA HOJE É OUTRA.
    PERDEMOS O PEQUENO CAMPO, SÓ FICAREMOS COM A SEDE EM TROCA DE UMAS MIGALHAS, QUE REZEMOS SER MIGALHAS.
    SOU A FAVO DE TROCA O PEQUENO ESTÁDIO POR UMA PEQUENA ARENA. MAS FICAR COM “UMA MÃO NA FRENTE OUTRA ATRÁS” NUNCA.

  6. Herbert disse:

    A PARTI DE AGORA SOMOS MAIS UM “SEM TETO”.

  7. evan figueiroa disse:

    o comentario de gustavo e perfeito vou aos aflitos desde menino tenho 54 anos e nunca abandonarei o meu nautico porque ele faz parte da minha vida.

  8. Antonio Luna disse:

    O Santos anunciou, nesta sexta-feira, a demissão do técnico Muricy Ramalho, encerrando assim uma relação de trabalho de dois anos na Vila Belmiro. A divulgação aconteceu depois de uma reunião entre os dirigentes alvinegros e Marcio Rivellino, empresário do treinador, que tratou da multa rescisória que será paga pelo clube. Muricy, que está em Ibiúna, já havia sido comunicado da decisão na noite de quinta.

    Agora, as partes apenas negociam os últimos detalhes jurídicos. A multa do treinador, por contrato, se aproxima dos R$ 4 milhões e foi, por alguns meses, o grande trunfo de Muricy diante da pressão pela sua saída. A assessoria de imprensa do Santos confirma que o clube vai pagar a rescisão do contrato ao treinador, mas o valor exato depende da negociação entre as partes.

  9. Estádio dos Aflitos, rua da angustura. Talvez seja isso uma das causas de tantos fracassos em mais de cem anos de existência. Foram raras as alegrias que tive ali. Colecionei muito mais tristezas e desgostos. Já vai tarde e não sentirei saudades. Quando a geração das 17 raposas largar o osso é possível que sejamos grandes. Até lá, enquanto houver leite na magra teta, vamos sofrendo e chorando nesse vale de lágrimas.

  10. Nildo Gomes disse:

    Nostálgia a parte, infelizmente os tempos estão cada vez mais cinzentos, negros mesmo para viajarmos tão profundamente no tempo. Para ser montando um time de vergonha e que tenha DIGNIDADE, bom e barato é só garimpar a região Nordeste afora e trazer o melhor de cada time chamado “grande” em cada estado nordestinho e não estas tranqueirinhas aprendizes que vem do São Paulo e cia. Trabalha diretoria! Trabalha colegiado. Vassourada já enquano é tempo! Essas lambanças a tempos foram anunciadas. Pra quê ficar esperando um resultadinho bom e depois levar mais lapadas.1

  11. Raimundo disse:

    Parabêns Krause! sempre impecável nas palavras.seu texto traduz o sentimento de um alvirrubro de verdade. NÁUTICO ACIMA DE TUDO!

  12. Eduardo Ferreira disse:

    CORREÇÃO: O que Gustavo escreveu é para tocar no coração dos verdadeiros alvirrubros…

  13. Eduardo Ferreira disse:

    Há pessoas que parecem não ter sentimento. Se politicamente são contra Gustavo Krause, deveriam pelo menos reconhecer nele um autêntico alvirrubro. Quantas vezes, encontrei-me com Gustavo na antiga geral. Ia sempre com Paulo, outro alvirrubro de 400 anos. O que Gustavo escreveu é para tocar no coração dos veradeiros alvirrubros. Quem ironiza não é alvirrubro ou coloca a paixão político-partidária acima de qualquer coisa.

  14. wellington china disse:

    meu DEUS oq sera de noz agora jogar em um campo neutro onde algums time de serie A parecem estar em casa mas se e pra melhorar nossa estrutura vamos NAUTICO teu caminho e de luz e tua força e tua garra sempre estara em me meu coração etaremos com vc onde vc estiver agora fica as lembranças de teus titulos nosso hexa vamos timba nunca te abandonarei estamos juntos nesse novo momento NAUTICO ate morrer

  15. yúri disse:

    Nossa! O único estádio que o náutico ganha é os aflitos e vai ter que sair?!
    O NÁUTICO ESTÁ GARANTIDO NA SÉRIE B!

  16. Aldo Sá disse:

    snif, snif, snif!

    Como tem babaquice neste mundo!

Deixe uma resposta para evan figueiroa Cancelar resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

*


6 − 4 =

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>