OS COVARDES DE 74

A presente carta é dirigida ao técnico Mancini e seus comandados. Muita gente imagina que o futebol é apenas um jogo. Mas o futebol vai muito além das quatro linhas. Como qualquer outro aspecto relevante da vida, o futebol possui história.

E sem conhecer a história não nos reconhecemos como personagens na divina comédia humana…

11 de agosto de 1974.

Estádio do Arruda.

Trinta e três mil pagantes.

O Santa Cruz era pentacampeão estadual.

O Santa Cruz prestes a igualar o orgulho maior do torcedor alvirrubro:

o Hexacampeonato da geração Bita, Brondi e Salomão.

Do outro lado do campo, estava justamente o Náutico.

Equipe reconstruída artesanalmente por Sebastião Orlando, diretor de futebol.

Mestre Sebastião trouxera o técnico Orlando Fantoni para os Aflitos.

Fantoni que se revelara tão grande técnico quanto fora jogador.

Neneca do América-MG chegara para o arco.

Neneca cotado para a seleção brasileira.

Betinho e Fernando Santana do Santa Cruz.

Jorge Mendonça do Bangu.

Nas três primeira rodadas do certame estadual.

Jorge Mendonça marcara nada menos que dez gols.

Oito deles numa única partida, diante do Santo Amaro,

igualando o recorde de Pelé.

Pelé manda um telegrama de felicitações a Jorge Mendonça.

Quarta rodada do estadual.

Aos 27 minutos da primeira etapa, o ponteiro Wilton do tricolor é expulso.

O Santa está com dez homens em campo.

O Náutico já era considerado superior desde o Brasileirão anterior.

Uma bela campanha.

Sempre superior ao adversário.

Mas é o Santa que corre mais em campo.

É o Santa que segura o rojão.

E marca seu gol aos 24 minutos do segundo tempo.

Gol do formidável Luciano Veloso.

Tempo que passa, o Santa vence.

Desolação nas hostes alvirrubras.

No vestiário, o sempre religioso Fantoni perde as estribeiras:

‘Covardes!’

Fantoni que era tido como um tio querido pelos atletas.

O Recife começa a gozação.

O time do Náutico era covarde.

Jorge não era de nada.

Neneca, um frangueiro.

A zaga Beliato e Sidclei, uma avenida.

Vasconcelos, uma moça.

Paraguaio era bom como dentista.

Mestre Sebastião Orlando olhou nos olhos de Fantoni.

O time era bom.

Mas agora, muito mais que a técnica, era necessário o coração.

Será que aquele time tinha coração e alma de vencedores?

Será que iriam superar o tabu diante do poderoso Santa Cruz?

Ou será que iriam sucumbir diante da história?

Frágeis personagens da divina comédia humana?

No jogo seguinte contra o América-PE.

Dedeu marcou duas vezes e acordou a equipe do drama vivido no Arruda.

O Náutico venceu por 4×1.

Mas no jogo seguinte.

Empatou o Clássico dos Clássicos diante do Sport: 0×0

Praticamente entregando de mão beijada o turno aos tricolores.

Porém… a história é tortuosa de vez em quando.

Foi naquele empate contra o Sport em 0×0.

Que Neneca decidiu que não iria mais tomar gol.

Era o dia 28 de agosto de 1974.

Neneca só foi levar um gol novamente quase três meses depois.

O Náutico jogando o que sabia e o que não sabia.

Perseguindo o Santa Cruz campeonato afora.

Empatando dois Clássicos das Emoções.

Querendo dar o troco.

Mas o troco se recusando no bolso da Cobra Coral.

Até o dia 1º de dezembro de 1974.

Um domingo meio chuvoso.

Aflitos lotado.

Última rodada do certame.

João Havelange nas sociais do Eládio de Barros Carvalho.

Convidado de honra da Federação.

Era a chance do troco.

Com um detalhe terrível.

O empate daria o Hexacampeonato ao tricolor.

Tricolor que saiu na frente com um tento de Zé Carlos.

Fantoni observou o semblante dos seus comandados.

Não havia medo.

Havia apenas a determinação de invadir a Normandia.

Custasse o que custasse.

Vasconcelos, Dedeu e Paraguaio balançaram s redes naquele dia.

O Náutico venceu por 3×1.

Dedeu passou tantas vezes pelo lateral Celso que este ficou desnorteado.

Grande promessa da seleção olímpica em Munique.

Celso?

Foi acusado de estar na gaveta.

Injustiça com o belo futebol de Dedeu.

Blasfêmia contra o belo futebol de Celso.

As coisas se inverteram de repente.

A cidadela tricolor desmoronou.

Nas duas partidas decisivas que se seguiram para decidir o título.

O Náutico venceu por 1×0.

Gols de Lima.

Desta vez, sem aceitar o melhor futebol do Náutico.

O culpado foi o arqueiro Raul Marcel.

Raul que nem precisava do futebol pra viver.

Os covardes se transformaram em heróis.

Heróis endeusados em Rosa e Silva desde 1974.

Quase quarenta anos depois.

Os jogadores carregaram Tio Fantoni nos braços.

Mestre Sebastião Orlando?

Disse apenas três palavras.

‘Hexa é LUXO!’

É.

Tem quem não valorize a história.

Tem quem não entenda que sem a história somos vazios.

Perdidos.

Ilhas.

Com a história nos pés e o futebol no coração.

Nenhum homem é uma ilha.

Nenhum homem é covarde.

Até que apitem o juízo final.

A mão que apedreja é a mesma que afaga.

Mas antes.

É preciso escrever com técnica, garra e suor nosso livro da vida.

Finalizando, meus amigos.

Jorge Mendonça chegou a seleção brasileira na Copa de 78.

Barrando… Zico.

Vasconcelos foi seleção chilena.

Ídolo dos Andes.

Neneca foi campeão brasileiro de 1978 no Guarani.

Beliato foi o herdeiro de Figueroa no Internacional.

E por aí vai.

Os antigos covardes de 74.

Se transformaram em parte inolvidável da história.

Imortais e invencíveis espartanos do nosso futebol até o final dos tempos…

Por: Roberto Vieira

10 respostas a OS COVARDES DE 74

  1. Jorge Caldas disse:

    Esse foi um dos melhores times que eu vi jogar. Eu estava na final nós aflitos. Foi muito lindo. Eu também era atleta do náutico das categorias de base. Quem viu Juca Show, Jorge Mendonça, Vasconcelos e a zaga com Sidiclei e Beliato jamais esquecerá. É muita saudade. Naquela época no Brasil existia futebol. Hj só mercenários.

  2. Bruno Marinho disse:

    Imprima esse texto e mostre a esses jogadores,como se joga com sangue nos olhos.

  3. Rodrigo Peixoto disse:

    Belíssimo texto! Parabéns mais uma vez Roberto!

    Imprimam e deem a cada jogador na saída do treino.

  4. JOSÉ FIRMINO disse:

    UTOPIA !
    É PURAMENTE UTOPIA ESPERAR ALGO MAIS DESSES MERCENÁRIOS DO FUTEBOL DE HOJE. NÃO EXISTE MAIS AQUELES QUE JOGAVAM POR PRAZER,POR BRIOS, E COMO SE FALAVA ANTIGAMENTE ( COM O CORAÇÃO NA PONTA DA CHUTEIRA )

    HOJE OS CARAS TEM UM BOM SALÁRIO, E TODA VEZ QUE SE ANTECEDE A UMA DECISÃO DE QUARQUER QUE SEJA A COMPETIÇÃO, ELES LOGO QUEREM SABER DE QUANTO VAI SER O EXTRA POR ESSAS CONQUISTAS.

    AMOR A PROFISSÃO NO FUTEBOL É COMO ÁGUA NO SERTÃO, C O I S A R A R A ! DIFÍCIL DE SE ACHAR.

    BELO TEXTO ROBERTO, ME FEZ VOLTAR AO PASSADO,
    ONDE AGENTE ERA FELIZ E NÃO SABIA !!!

  5. Francisco de Deus disse:

    Concordo plenamente com tudo que foi colocado e acho que tem que ser passado para esses jogadores que aí estão.Mostrar a eles que nossa torcida estará sempre ao lado deles quando eles demonstrarem dentro de campo muita luta e determinação. Não podemos num jogo como esse abrir mão da marcação sem dar chance ao adversário.Mesmo sabendo do nosso momento,eles sempre vão de todo jeito tentar nos superar porém resta-nos a força e a determinação dentro de campo. Vamos a luta e da próxima a lição foi aprendida. Avante timba vamos mostrar nosso força e vencer esse campeonato. Estaremos juntos torcedores e jogadores.

  6. Léo disse:

    É ISSO AÍ!!!!!! MOSTRA PARA ESSA DIRETORIA AMADORA.

  7. Fabio lima disse:

    mostra as imagens daquelas decisoes contra
    o santa cruz aos bundas-moles do nautico.
    a esse goleiro ridiculo mao de bosta como ne
    neca atuava,como sabia sair do gol e como liderava a sua defesa.eram jogadores brilhan
    tes e eu estava nos aflitos em 27 de outubro
    e 1974 para assistir nautico 5x0sport.
    e estive em todas as decisoes contra o santa
    cruz,cuja torcida acusa raul e celso de terem
    se vendido,uma mentira deslavada.
    vou ser bem sincero;SE O NAUTICO DECIDIR O
    TITULO NOS AFLITOS,ACREDITO SIM QUE SERA O
    CAMPEAO,POREM,SE TIVER QUE DECIDIR CONTRA O
    SPORT NA ILHA,PODEM ESQUECER,POIS ESSES FROU
    XOS NAO VAO AGUENTAR A PRESSAO.

  8. Marcos disse:

    Os comentários dos torcedores do Sport vocês deixam no site. Quando a gente comenta as verdades que a torcida iludida não quer ouvir vocês excluem meus comentários.

  9. Careca disse:

    Caro Roberto vieira,parabens pela lembra
    ca. Com o teu texto viagei anos atras,estava com treze anos e fui a todos os jogos acompanhando meu pai.Que sensacao boa ver oNautico arrebentando,voltando ao presente……Ja passou da hora de temos outros anos magicos como aquele..So com uniao de todos os alvirrubros,somar energias e colocar como discurso a uniao pois so ela da o merecimento da vitoria..
    Pra frente NAUTICO……………….

  10. Me lembro perfeitamente, desse episodio, nosso Técnico Orlando Fantoni disse que os nossos jogadores foram covardes, ao aceitarem as provocações dos tricolores, disse que o time tinha sido superior em campo e por covardia, deixaram o jogo pela briga, o pau cantou em campo,o Diretor de Futebol Sebastião Orlando do Nascimento montou uma verdadeira seleção, gastando do próprio bolso trazendo para o nosso Náutico, Neneca,Beliato ,Sidclei,Vasconcelos,Jorge Mendonça,Lima ,Juca Show, Betinho e Fernando Santana do Santa Cruz e outro jogadores, como ontém perdemos uma batalha, mas iremos ganhar o Título, igualzinho a 74,quem viver verá, Náutico o Melhor time do Nordeste.

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