Texto em homenagem a Lula Carlos

Por José Neves Cabral*

Lula Carlos misturava mitologia grega e futebol. Para ele, as batalhas dos gramados eram momentos épicos a serem contados com picardia e humor. Incitatus, o cavalo do imperador romano Calígula, vez por outra era citado, despertando nossa curiosidade para outro tema, além do futebol. Era isso que Lula fazia. Escrevia nos ensinando a enxergar de outra forma os dramas vividos nos campos de futebol.

Advogado, auditor do INSS, possuía muitos livros em casa. Era filho do escritor Silvino Lopes, cuja peça A Ladra, ficou conhecida nacionalmente e até hoje é encenada. Eça de Queiroz era um de seus escritores preferidos.

De sua afiada ironia ninguém escapava. O técnico Evaristo Macedo ficou conhecido aqui por suas grosserias com a imprensa. Certa vez, ao ser criticado por Lula, lançou a bola no ar: “Esse Lula Carlos não escreve nada. Meu menino de cinco anos escreve melhor que ele”. A ousadia chegou aos ouvidos de Lula.

No outro dia, em sua coluna no JC, o baixinho matou a bola no peito e devolveu: “Menino inteligente danado… Nem parece que é filho de Evaristo…”

A cartolagem também não escapava do humor de Lula.

“Dirigente de futebol fala mais que narrador, ganha mais que jogador e gasta menos que torcedor”.

Durante quase 17 anos, convivemos no JC e vez por outra ele promovia um encontro na sua casa, em Campo Grande. À beira da piscina, o uísque rolava. Sabia tudo dos bastidores do futebol. Os próprios dirigentes ligavam para ele, um entregando o outro. Lula guardava tudo e soltava na hora certa.

Certa vez foi ameaçado por um goleiro que foi à porta do JC esperá-lo. Ao ver Lula, baixinho, cerca de 1,60m, o jogador desistiu. Outro dirigente ameaçou dar-lhe uma surra, mas foi levado à sua casa por um amigo comum. E lá em vez da surra, tomou quase todo o estoque de cervejas que o cronista tinha. No outro dia, Lula registrou na coluna.

Personalidade forte, Lula queria apenas escrever a coluna, pois fora editor de Esportes por vários anos, chefiando jornalistas como Chico José e Sílvio Oliveira. No início dos anos 90, foi afastado do jornal porque não queria acumular a função de revisor.

Após cerca de dois meses, eu, Otávio Toscano e o fotógrafo Fernando Silva fomos cobrir um jogo entre Santa Cruz e CRB, em Alagoas. Paramos para o café da manhã em Palmares. Um garçom, ao ver o carro com a logomarca do jornal, veio ao nosso encontro. “Amigos, há muito queria ver alguém desse jornal para perguntar por que Lula Carlos não está escrevendo mais lá?”

Na volta da viagem, comunicamos o fato a Sílvio Oliveira, editor de Esportes. O velho Pica-pau balançou-se, subiu ao quinto andar, foi bater na sala de Sérgio Moury, diretor executivo. Uma semana depois, Lula estava de volta sem perder a piada.

“Bom filho é aquele que volta à casa do Paes Mendonça…”

Lula falava baixinho ao telefone. Acordava cedo, querendo saber novidades.  Era rotina ouvir minha mãe me chamar, avisando que Lula estava ao telefone: “Zé, é aquele senhor que fala bem baixinho”.

Em 10 de setembro de 2006, ele ligou para saber o que eu iria fazer após ir ao JC receber a notícia da minha demissão por intermédio de Ivanildo Sampaio. Disse que não sabia. “Venha pra cá”, pediu. Após sair da Redação, fui para Campo Grande. Tomamos um litro de uísque. Dona Mariinha providenciou uma pizza. Sai de lá no fim da tarde. Foi a última vez que bebemos juntos.

Dia desses, lembrei  no facebook uma frase de Lula sobre num momento de crise do Náutico que bem se enquadraria nesta campanha do time no Brasileiro. “Com os guinés que vivem nos Aflitos está o grito de guerra do Náutico: tô fraco, tô fraco, tô fraco”.

Descanse em paz, grande Lula.

* José Neves Cabral é jornalista

2 respostas a Texto em homenagem a Lula Carlos

  1. Bruno Marinho disse:

    Lula Carlos faz falta na Imprensa Pernambucana.

  2. Valfrido disse:

    E ALÉM DE TUDO, ALVIRRUBRO!

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