E lá se vão 16 anos. No dia 20 de junho de 2001, uma quarta feira à tarde, o Náutico enfrentou a AGA de Garanhuns no estádio dos Aflitos, partida válida pelo 2º turno do campeonato pernambucano. O racionamento de energia que o país enfrentava mudou a rotina do torcedor pernambucano. No primeiro turno, jogo em Garanhuns, vitória apertadíssima do Náutico por 2×1. Era a reta final do campeonato. Mais três rodadas e teríamos um campeão, caso o Náutico vencesse também o segundo turno.
O Náutico vinha embalado sob o comando de Muricy. Campeão do 1º turno, invicto há dez partidas, com seis vitórias e quatro empates. O ataque havia feito 21 gols, a maioria deles de Kuki e Tiago Tubarão. A defesa, sólida e compacta, com Gilberto em excelente fase, Lima e Silvio na zaga, e Sangaletti no primeiro combate, só havia tomado 8 gols nas últimas 10 partidas.
No domingo 17 de junho a cidade de Bonito tinha sido invadida pela torcida alvirrubra, que foi em peso acompanhar a vitória de 3×2 em cima do Porto. A confiança no time estava em alta. O orgulho de vestir a camisa alvirrubra havia sido resgatado. A certeza da vitória estava no semblante de cada torcedor, em todos os jogos. Uma vitória no jogo contra a AGA era fundamental, imprescindível para as pretensões do Náutico de vencer o segundo turno, e sagrar-se campeão estadual.
Quarta-feira 20 de junho, a cidade do Recife estava agitada, trânsito infernal, sol escaldante, calor insuportável. Devido ao racionamento de energia o horário do jogo foi marcado para as 15h. Não pude ir ao estádio, mesmo estando a cem passos dos Aflitos. Quarta-feira à tarde era horário de consultório, um compromisso profissional. Eu tinha nada menos que 12 pacientes para atender.
Por volta das 14h o estacionamento da clínica, que fica a cem passos do estádio dos Aflitos, já estava lotado. Carros e mais carros de torcedores alvirrubros ocupavam as vagas destinadas aos médicos e pacientes. Uma confusão dos diabos. Uma onda de torcedores alvirrubros varria a Rua do Futuro e a Av. Rosa e Silva. Mais de 12 mil fanáticos enfrentaram todas as adversidades existentes e foram empurrar o Timbu para mais uma vitória.
Sem condições de acompanhar o jogo, nem mesmo pelo rádio, resolvi me guiar pelo relógio em cima da mesa, e pelos gritos da torcida. O jogo era bem ali, eu estava a cem passos dos Aflitos.
A cada 20 minutos um novo paciente. Porém a cada minuto escutava-se claramente os gritos de desespero dos torcedores. Uhhh! Ihhhh! Ahhh! E nada de escutar o que eu tanto queria ouvir.
15:30h; nesse instante ouvi o tradicional grito de Pêeeeeeenalti!!! Cheguei a vibrar no consultório. Afinal, pênalti é mais que meio gol. Fiquei esperando o grito de gol. Mas algo de ruim, nefasto aconteceu. O bairro inteiro emudeceu. Aquele silêncio todo me atordoou. O que será que aconteceu. Que a bola não entrou, isso eu agora tinha certeza.
15:45h; deve ter chegado ao fim o primeiro tempo. Um silêncio com ares de tensão tomou conta do bairro inteiro. No consultório era um olho no paciente e outro no relógio, postado estrategicamente bem na minha esquerda, em cima da mesa.
16:00h; deve ter começado o segundo tempo. Dava nitidamente para escutar os gritos da Fanáutico: “olé Náuticoooô, olé Náuticooooô”! Outros e outros pacientes entraram e foram atendidos. E nada de sair o gol. Por que a demora? O que estava acontecendo no campo de batalha?
16:30h marcava o relógio. O jogo caminhava para o seu final. A angústia e a ansiedade já tomavam conta de mim. Naquele instante a respiração precisava da minha ajuda para acontecer. Era algo que fugia ao meu controle emocional. Minutos depois, entre um paciente e outro abri a janela da sala e perguntei ao nosso zelador: “Ramos? E aí?” Ele respondeu com olhar preocupado e fácies de tensão: “zero a zero doutor. E Kuki ainda perdeu um pênalti no primeiro tempo”! Interfonei para a recepção e mandei entrar mais um paciente.
O futebol é o esporte onde o previsível não se prevê. Muitas vezes é dito, em determinado jogo, que a bola não quis entrar. O gol que não aconteceu. Acontece que, em certos momentos, em determinadas partidas, nenhum sofrimento se iguala ao que passamos nas arquibancadas. Chegam até a dizer que o futebol é um esporte para sofredores, e não torcedores, pois não há dor mais perfeita após uma derrota, do que descobrir depois, que não era um sonho, que tudo era real.
Durante o atendimento olho mais uma vez para o relógio, que marcava 16:38h. A sete minutos do fim do jogo escutei o grito mais emblemático daquele ano. O estrondo foi ensurdecedor. Foi de arrepiar. “Goooooooooooooooooooooooool. Gooooooooooooooooooooooooooooo! Gol do Náutico!!! A redenção estava a caminho!
Parei o atendimento. Meus olhos começaram a marejar. Olhava para as paredes, procurava concentrar a visão nos quadros da parede. Respirei bem fundo. Por alguns segundos levitei do consultório, e me transportei para o estádio. Eu estava a cem passos dos Aflitos.
Pude ver o replay do lance, quando Kuki fez um cruzamento milimétrico da direita, e Tiago Gentil de cabeça mandou para as redes. Pude ver os torcedores em êxtase, abraçados, alguns chorando de contentamento. Pude sentir um alívio interior, que me deixou levitando por mais alguns instantes.
Em segundos fui acordado pelo paciente, que me olhava sem entender o que estava acontecendo: “doutor, o Sr. está passando bem?” “Nunca estive tão bem comigo mesmo”! Foi a minha resposta.
O Náutico vencia mais um obstáculo na campanha do título de 2001. Um jogo dificílimo, decidido nos instantes finais, graças ao trabalho incansável de um comandante que chegou, viu e venceu. Graças também ao entrosamento da dupla de ataque, Kuki e Tiago Gentil.
Ao ver mais tarde as imagens do gol na televisão, pude compreender como os caprichos da vida vão acontecendo, e premiando aqueles que fazem por merecer. Aquele time jogava por música. Os cruzamentos eram feitos de olhos fechados. Todos sabiam exatamente o que fazer, independente da situação e do momento do jogo.
Ao sentir a vibração de um bairro inteiro quando Tiago Gentil mandou a bola de cabeça para as redes, após um cruzamento milimetricamente perfeito de Kuki, posso hoje concluir que, nem todos os dias do mundo nos dão um instante da felicidade de um gol. Pude ver também que, a perfeição, ela surge em determinados momentos, bem na nossa frente. Ela existe!
Por: Carlos Henrique
CONCORDO TOTALMENTE,POR CULPA DE DIRETORES E PRESIDENTES VAGABUNDOS QUE ROUBARAM O NOSSO NÁUTICO
muito lindo ver o estádio dos aflitos assim,
lotado.eu o vi assim muitas vezes e pude
ver varias vitorias do Nautico em seu esta
dio,onde os adversários sentiam medo,pavor.
hoje em dia,somos ridicularizados e tendo a
suportar todas as zombarias.
tudo por culpa de diretores vagabundos e mal
intencionados,ladroes e vigaristas que não
honram a historia vencedora desse clube.